Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 31 de março de 2019 às 20:58

Notas da semana de Marques Mendes

As notas da semana de Marques Mendes no seu comentário na SIC. O comentador fala sobre os últimos números conhecidos sobre as contas públicas e o papel determinante que Mário Centeno teve, comenta os últimos resultados das sondagens para as eleições europeias, entre outros assuntos.

EUROPEIAS - PSD MAIS PRÓXIMO DO PS

 

  1. É muito raro António Costa criticar o PSD, sobretudo desde que Rui Rio é líder. Mas sucedeu ontem, num comício sobre as eleições europeias. Isto tem significado político e a explicação só pode ser uma: a recente sondagem da Aximage sobre as eleições europeias que dá uma grande aproximação do PSD ao PS – 34% para os socialistas, 29% para os sociais-democratas.
  2. Por que é que isto sucede?
  3. Primeiro: o PSD tem um bom cabeça de lista, Paulo Rangel. É competente, é combativo e tem um discurso assertivo. Ao contrário, Pedro Marques é um cabeça de lista frágil. E nas eleições europeias o cabeça de lista conta.
  4. Segundo: Rui Rio foi feliz na lista que fez. Surpreendeu pela positiva. Foi uma lufada de ar fresco.
  5. Terceiro: o PSD agora tem tido paz interna. Foi o grande contributo que Luís Montenegro deu ao partido, com a clarificação do passado mês de Janeiro.
  6. E, finalmente, o "festival" de erros políticos que o PS tem vindo a cometer. A verdade é que o Governo tem várias vitórias no plano económico (défice, desemprego, economia) mas passa tempo a cometer erros políticos.

 

 DÉFICE HISTÓRICO

 

  1. É um resultado histórico. Há anos que Portugal não tinha, na prática, défice zero. O último resultado semelhante foi há 46 anos, em 1972, ainda no tempo da ditadura. E nesse ano de 1972 o resultado foi exactamente o mesmo de agora (0,5% do PIB).
  2. Claro que se pode dizer, como faz a oposição: que nunca houve uma conjuntura tão favorável; que este resultado podia ter sido alcançado mais cedo; que tudo foi conseguido à custa do aumento da carga fiscal e do sacrifício do investimento público, sobretudo na saúde.
  3. É tudo verdade. Mas o certo é que Mário Centeno conseguiu. E, sobretudo, teve o mérito de não ceder às pressões despesistas, em prol de défices maiores.
  4. E esta vitória é importante para o país. Dá-lhe credibilidade; ajuda a baixar os juros da dívida; garante alguma folga e uma certa almofada para crises futuras; sem esquecer que menos défice é menos dívida. 

 

RECORDE NA CARGA FISCAL

  1.  Se temos um défice histórico também temos um recorde na carga fiscal. Vejamos alguns anos essenciais desde o início do século: em 2000 (31% do PIB); em 2010, início da crise (30,4%); em 2013, ano do grande aumento de impostos de Vítor Gaspar (34,3%); 2018, novo recorde (35,4%). 
  1. O que há a dizer?
  2. Primeiro: que Vítor Gaspar tem a fama mas Mário Centeno tem o proveito. Afinal, foi com a ajuda da receita fiscal que o MF conseguiu o resultado histórico do défice.
  3. Segundo: que, estatisticamente, a nossa carga fiscal ainda está abaixo da média europeia (que é de 38,9%). Mas, se tivermos em conta que o nosso nível de vida está abaixo dos padrões médios europeus, então temos de concluir que temos um esforço fiscal claramente exagerado, o que prejudica as pessoas e compromete o crescimento económico.
  4. Terceiro: o mais grave, porém, é isto: não tendo havido nestes últimos anos uma diminuição da carga fiscal, dificilmente isso sucederá nos próximos tempos. A explicação é simples: com a economia a arrefecer, nenhum ministro das Finanças aceitará no futuro baixar impostos, com o receio de perder receita e comprometer o défice. Desperdiçámos, pois, uma oportunidade. 

 

CENTENO FICA NO GOVERNO?

 

  1. Se Centeno quer ficar ou não num próximo Governo só o futuro o dirá. Agora, uma coisa é certa: António Costa quer desesperadamente que ele fique. E percebe-se porquê.
  2. Primeiro: Mário Centeno é um grande trunfo eleitoral do PS. A seguir a António Costa, é mesmo o único grande trunfo eleitoral do PS. É muito raro ver-se esta situação: é o PM que precisa do MF, não é o MF que precisa do PM.
  3. Segundo: tudo porque Mário Centeno tem hoje duas condições essenciais para ganhar eleições e para governar – popularidade e credibilidade. Há muitos anos que não se via um MF tão popular como Centeno. Há muitos anos que não se via um MF de um governo de esquerda a ter tanta credibilidade no eleitorado do centro e do centro direita.
  4. Sem esquecer esta questão essencial – Mário Centeno fez mudar a natureza do PS em matéria financeira. Tradicionalmente o PS era visto como um partido despesista e gastador, incapaz de ter contas em ordem. Era o partido da cigarra. Foi assim com Guterres e com Sócrates. O MF, colocando ordem nas contas do Estado, mudou esta imagem terrivelmente negativa que o PS tinha. 

 

GOVERNO – VITÓRIAS E DERROTAS

 

  1. O PS tem somado várias vitórias económicas: o défice; o desemprego baixo; a devolução de rendimentos; o crescimento da economia. Com todos estes resultados, o PS devia estar próximo da maioria absoluta. Em vez disso, está nos 37%.

 

  1. Por que é que isto sucede? Por vários erros políticos:
  2. Primeiro: má gestão do ciclo político. O Governo apostou tudo em 2018. Apostou todas as "fichas" em 2018. Queria eleições antecipadas. Só que PCP e BE não provocaram a crise e o Governo também não quis correr esse risco. Esta indefinição estratégica foi fatal – o Governo preparou-se para estar mais forte em 2018 e agora está mais fraco em 2019.
  3. Segundo: uma errada gestão de expectativas. O Governo geriu mal as expectativas. Decretou muito cedo o fim da austeridade, inflacionou assim as expectativas de vários grupos profissionais e a seguir não tinha dinheiro para os satisfazer. Conclusão: gerou desilusões e instabilidade social.
  4. Terceiro: conflitualidade social. O Governo não contava com tamanho surto de greves e de conflitualidade social. E demorou tempo a perceber que as greves eram um problema: primeiro, porque provocaram desgaste; depois, porque acabaram com o discurso de que este é o Governo da paz social.
  5. Quarto: tiques de arrogância. Há meses que o PS soma tiques de arrogância. No Parlamento, fora dele, até nas atitudes com os seus parceiros. Ainda esta semana tivemos mais um: o PM a admitir que Pedro Marques poderá ser o próximo Comissário Europeu. Isto é um exercício de arrogância: na prática, está a dizer que Pedro Marques vai ser eleito mas não vai ser deputado europeu.

O PM tem muita habilidade política. Mas passa com muita facilidade do 80 para o 8. Teve muito talento para derrubar António José Seguro. A seguir, foi para as eleições e perdeu redondamente. Teve muita habilidade para construir a geringonça e a manter quatro anos unida. Mas agora vai acumulando erros e mais erros. Provavelmente vai ganhar. Mas vai ganhar mal. E a seguir a sua vida vai ser um inferno. Prepara-se um Guterres 2.

 

 
RELAÇÃO FAMILIAR NO GOVERNO

 

  1. Já expressei a minha opinião: um caso, ou dois ou três isoladamente (no Governo ou nos gabinetes ministeriais) não têm importância de maior. O problema é o excesso, o exagero, a profusão de casos. O povo costuma dizer: o que é de mais é erro.

 

  1. Aqui chegados, há que dizer que este caso é um incómodo para o PS, um dano para a democracia e um sintoma dos partidos fechados à sociedade.
  2. Incómodo para o PSEsta profusão de casos cria um padrão. E este padrão é negativo. Gera desgaste na opinião pública. E como estamos em período eleitoral, este desgaste é rapidamente amplificado. Não me surpreende que o PS seja penalizado em próximas sondagens e até nas eleições europeias.
  3. Dano para a democraciaMas esta situação não é apenas um incómodo partidário. É também penalizadora para a democracia. Agrava o sentimento anti-políticos que existe na sociedade. Degrada a qualidade da democracia. E pode ter um de dois efeitos ou os dois: ou fomenta a abstenção; ou alimenta os populismos; ou contribui para ambos ao mesmo tempo.
  4. Finalmente, é um sintoma (entre vários outros) do que há anos sucede em Portugal: os partidos cada vez mais virados para si próprios e cada vez mais fechados à sociedade. É nos governos, é no Parlamento, é nas autarquias. E isso só se resolve com um choque de fora para dentro. E esse choque só é possível com uma reforma do sistema político, em particular do sistema eleitoral.
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