Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 14 de abril de 2019 às 20:56

António Costa não controla Mário Centeno

As notas da semana de Marques Mendes no seu comentário na SIC. O comentador fala sobre as eleições europeias,o estudo sobre o futuro da Segurança Social, a entrevista de Centeno ao Financial Times e a sua manutenção no Governo na próxima legislatura, entre outros temas.

ESTUDO SOBRE AS PENSÕES

A respeito do estudo anteontem divulgado, há que dizer:
  1. Primeiro: o debate é útil, porque este problema é sério e toca a todos;
  2. Segundo: podemos discordar das soluções para o futuro da Segurança Social – e há várias soluções possíveis – mas é impossível não ver que há um problema centrado em quatro realidades:
  • O envelhecimento crescente da população – logo, mais pessoas a receber pensões de reforma;
  • O aumento da esperança de vida – logo, mais pensionistas a receber reformas durante mais tempo;
  • A diminuição da população – logo, menos activos e descontar e consequentemente menos receitas para a Segurança Social;
  • O estado da economia – basta um pequeno arrefecimento da economia e uma subida do desemprego para logo termos mais despesa social e menos receita.

 

Posto isto, há que acrescentar duas coisas: primeiro, se há matéria que justifica um Acordo de Regime é esta da reforma da Segurança Social (porque é reforma para uma ou mais gerações); segundo, o tempo certo para tratar desta matéria é no início e não no fim de uma legislatura. Este tema requer serenidade e não excitação eleitoral.

 

AS DECLARAÇÕES DE CENTENO AO FT

Surpreendentemente, Mário Centeno veio dizer ao Financial Times que, afinal, não houve uma mudança grande e radical na política de austeridade. Houve, sim, segundo ele, uma mudança mas pequena. Tudo ao contrário do discurso oficial do Governo.

 

  1. Primeiro: estas declarações provam que, como tenho dito, este é um Governo bicéfalo. Há António Costa e há Mário Centeno. Um pensa uma coisa, o outro pensa coisa diferente.

  1. Segundo: do ponto de vista da geringonça, esta declaração é um disparate político e eleitoral. Primeiro, porque contradiz todo o discurso do PS, do PM, do PCP e do BE. Todos devem ter ficado à beira de um ataque de nervos; segundo, esta declaração só ajuda objectivamnete a oposição – quando em campanha eleitoral e em debates televisivos António Costa falar que virou a página da austeridade, Rio e Cristas vão atirar-lhe à cara estas declarações de Mário Centeno.

 

  1. Terceiro: porque é que Mário Centeno faz isto? Porque tem uma agenda própria, porque corre em pista própria, porque tem discurso próprio e timings próprios. E António Costa, como se vê, não controla Mário Centeno.

 

CENTENO FICA NO GOVERNO?

 

O Expresso diz que "Costa segura Centeno no próximo Governo". A este respeito diria:

 

  1. Primeiro: esta notícia mostra bem a força de Mário Centeno e a fragilidade de António Costa. António Costa é que precisa de Mário Centeno, não é Mário Centeno que precisa de António Costa.

 

  1. Segundo: não tenho qualquer dúvida que ao PM interessa muito que Centeno continue num próximo Governo do PS. Já o disse e hoje repito – Centeno é o maior trunfo eleitoral do PS. A dúvida é saber se ficar no próximo Governo também interessa a Mário Centeno. É que com o arrefecimento da economia ele não terá no futuro tão boas condições como teve até agora.

 

  1. Terceiro: Centeno, se quiser, pode ser vice-presidente da próxima Comissão Europeia. Um grande lugar, com um mandato alargado de 5 anos, o que não existe no Eurogrupo. Se optar por não ser e preferir continuar no Governo, então é legítimo pensar que as suas ambições no médio prazo podem passar por outros voos políticos, mais no plano interno e não no plano internacional. 

 

LIGAÇÕES FAMILIARES PENALIZAM PS

  1. Segundo uma sondagem da Aximage, 62% dos portugueses criticam as nomeações de familiares feitas por vários membros do Governo. E este resultado leva a uma quebra do PS nas intenções de voto. Não é de surpreender.

 

  1. O que surpreende é outra questão: sempre considerei, como vários outros, que o PM era um exemplo de inegável habilidade política. Mas com tantos erros nos últimos tempos importa perguntar: o que se passa com António Costa? Onde está a sua habilidade política? O PS já teve 21 pontos de diferença para o PSD. Agora tem apenas 7. Porquê tantos erros? Vejamos:
  • Geriu mal os incêndios de 2017;
  • Geriu mal o dossier de Tancos;
  • Está a gerir mal a questão das relações familiares no Governo;
  • Escolheu um cabeça de lista às Europeias que deixa muito a desejar;
  • Valorizou as Europeias que são as eleições mais difíceis para os Governos.
  • Tem um comportamento errático, como ainda se viu esta semana com as incompatibilidades dos advogados/deputados.

 

  1. Por que é que isto sucede? Porquê tantos erros? É por deslumbramento? É por arrogância? É por cansaço? É por falta de um efectivo número dois no Governo? É um pouco de tudo isto?
  • A verdade é estaAntónio Costa é capaz do 8 e do 80, do melhor e do pior. É capaz de apear António José Seguro e a seguir perder com Passos Coelho. É capaz de fazer a geringonça e depois deitar a perder uma maioria que estava ao seu alcance.

 

QUEM VAI GANHAR AS EUROPEIAS?

 

  1. Até há pouco tempo, os dados apontavam para que genericamente todos os partidos tivessem condições para cantar vitória: o PS porque ganhava de forma fácil; o PSD porque ganhava às expectativas; o CDS e o Bloco porque subiam; o PCP porque mantinha a sua posição.

E este cenário, manda a verdade que se diga, continua a ser o mais provável.

 

  1. Mas atenção! Os erros cometidos pelo Governo nos últimos meses e semanas mostram que está instalado o caldo de cultura para poder haver uma surpresa nestas eleições: e a surpresa seria o PS perder as eleições ou então ter uma vitória pífia, à tangente. Convém ter em atenção o seguinte:
  2. Primeiro: as eleições europeias são sempre difíceis para os Governos. A prova é que, nos últimos 25 anos, o partido que estava no poder perdeu quase sempre as eleições europeias. Só houve uma excepção em 1999, quando o PS ganhou, com Mário Soares à frente da lista. Fora isso, quem estava no poder em 1994, 2004, 2009 e 2014 perdeu sempre.
  3. Segundo: estas são, tradicionalmente, umas eleições em que há muito voto de protesto. E a verdade é que há neste momento um conjunto de irritantes que pode suscitar o protesto dos eleitores contra o Governo – seja na economia, seja nas reivindicações laborais, seja nas questões comportamentais. 

 

 ELEIÇÕES EM ESPANHA

 

  1. A duas semanas das eleições em Espanha, e segundo a última grande sondagem, há alguns dados categóricos:
  • Grande favorito à vitória – o PSOE
  • Grande queda eleitoral – o PP
  • Grande novidade política – VOX
  • Oportunidade de chegar ao Governo – Está eleitoralmente ao alcance quer do Podemos quer do Ciudadanos, em coligação com o PSOE.
  • O sistema que durante décadas (não já nos últimos anos) foi bipartidário (com PSOE ou PP) passará a pentapartidário.

 

Para além destas, há outras relevantes conclusões:
  1. A esquerda apostou numa agenda social e já ganhou. Falta apenas saber se, em conjunto, PSOE e Podemos têm maioria absoluta.
  1. A direita apostou no discurso da unidade de Espanha e já perdeu. É quase impossível que PP, Ciudadanos e Vox tenham a maioria absoluta.
  2. A única grande dúvida mesmo, nestas eleições, é se vamos conseguir ter um governo estável. Já esteve mais difícil. Agora, parece ser mais fácil. Mas ainda não é um dado adquirido. E este é um elemento essencial para a economia. A espanhola e a portuguesa.
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