Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 08 de setembro de 2019 às 21:03

Centeno vai mesmo ficar no próximo Governo mas não fará todo o mandato

As notas da semana de Marques Mendes no seu habitual comentário na SIC. O comentador político fala sobre o Brexit, o tabu de Centeno e o balanço da semana eleitoral, entre outros assuntos.

O TABU DE CENTENO

 

  1. Está instalado um verdadeiro tabu em torno de Mário Centeno. Fica ou não fica no Governo depois das eleições? Vamos aos factos do tabu.
  2. Há meses, Centeno afirmou categoricamente que clarificaria em Setembro o que tencionava fazer. Chegámos a Setembro e ele não clarifica. Não sabe o que fazer. É tipo "Ministro no meio da ponte".
  3. Centeno diz querer terminar o seu mandato no Eurogrupo (Junho 2020). E o PM acrescenta: é a prova de que ele fica no Governo. Não se pode ficar no Eurogrupo sem ser ministro das Finanças. Não é assim. Temporariamente é possível ser-se Presidente do Eurogrupo sem se ser MF. Já há dois precedentes (os 2 anteriores Presidentes da Comissão, com Juncker à cabeça).

 

 

  1. Por que é que este tabu acontece? Porque o MF está cheio de dúvidas:
  2. Primeira dúvida: não sabe se deve ficar no Governo. Já percebeu que, mais tarde, sairá sempre em piores condições que agora;
  3. Segunda dúvida: não tem garantias de, ficando e saindo mais tarde, haver algum cargo internacional relevante que possa ocupar;
  4. Terceira dúvida: não sabe se quer ir para o BdP, a meio de 2020, exactamente na mesma ocasião em que termina o mandato no Eurogrupo.

 

  1. Aqui chegados, do que apurei, tenho hoje uma certeza e uma dúvida. A certeza é que Centeno vai mesmo ficar no próximo Governo. A dúvida é se sai em 2020, directamente para o BdP; ou se sairá apenas no fim de 2021, para um cargo internacional. O mandato todo, 4 anos, é que não fará.

A TRAPALHADA DO BREXIT

 

  1. O Reino Unido vai de trapalhada em trapalhada até à trapalhada final.
  2. Primeira trapalhada: eleições. Claro que o RU vai ter eleições antecipadas. Mas não no calendário que o PM quer. Ele quer antes de 31 de Outubro, para se fortalecer politicamente. Mas só as vai ter mais tarde. A oposição quer fragiliza-lo, queimando-o em lume brando. É o jogo do "gato e do rato". Mas, atenção, ele tem 10 pontos de vantagem nas sondagens.
  3. Segunda trapalhada: adiamento do Brexit. O Parlamento decidiu o adiamento do Brexit. A UE não objectará mas é preciso fazer o pedido de adiamento. O PM resiste a fazê-lo. Tanto que a imprensa britânica de hoje já fala de possível ordem de prisão ao PM por desrespeito a uma ordem legal. Ao que se chegou: já se fala de prisão do PM.
  4. Terceira trapalhada: Brexit mais tarde, sim. Mas com acordo ou sem ele? Ninguém sabe. O que o Parlamento decidiu não é resolver o assunto. É só adiar. O problema de fundo mantém-se e ninguém tem solução para a questão nuclear – a fronteira entre as duas Irlandas.
  5. Quarta trapalhada: posse da nova Comissão Europeia. A posse está prevista para 1 de Novembro. Mas só pode acontecer se forem aprovados todos os Comissários ao mesmo tempo. Ora, se o RU não sai a 31 de Outubro, tem que indicar Comissário. Como não indica, temos aqui um impasse – ou a posse é adida ou têm de ser revistas as regras vigentes.
  6. Quinta trapalhada: o futuro independente da Escócia. Se o RU sair da UE, há o risco sério de a Escócia querer tornar-se independente do RU para se tornar membro da UE. Isto pode ser uma Caixa de Pandora. Primeiro, pela desintegração do Reino Unido. Depois, pelo precedente que pode abrir para outros casos – a Catalunha, o País Basco, a Flandres.

 

  1. Prejuízos de um Brexit selvagemPoucos são os estudos técnicos que estimam os prejuízos que cada país da UE terá com um Brexit sem acordo. Uma universidade belga, Leuven, fez essa previsão, com conclusões importantes:
  2. Países da UE menos afectados – Grécia, Croácia e Espanha;
  3. Países da UE mais afectados – Irlanda, Malta e Bélgica;
  4. Portugal está na médiaMesmo assim, as perdas económicas estimadas são na ordem dos 2,3 mil milhões de euros, com especial incidência na área dos têxteis, sobretudo a norte do país. No desemprego, a previsão é de um agravamento de 0,6%.
  5. Perdas económicas para toda a UE – Cerca de 200 mil milhões de euros;
  6. Perdas económicas para o RU – Cerca de 113 mil milhões de euros.

 

BALANÇO DA SEMANA ELEITORAL

 

Esta foi a primeira semana de debates e entrevistas. Três destaques a sublinhar:

  1. Primeiro: um partido a fazer tudo pela maioria absoluta – o PS. Formalmente António Costa não a pede. Na prática, todos percebem que é esse o objectivo. E tem um grande aliado – a economia. As pessoas estão globalmente satisfeitas com o estado da nossa economia. Ainda esta semana o INE deixou claro que a confiança dos consumidores está em alta. As más notícias económicas só chegarão depois das eleições, em 2020.

 

  1. Segundo: dois partidos a tentarem impedir a maioria absoluta – o PCP e o BE.
  • O PCP foi feliz com a Festa do Avante. É a sua grande mobilização anual e a sua grande oportunidade de passar mensagens. O PCP é um partido de massas e não de debates.
  • Já o BE teve uma semana infeliz. O pior momento foi o debate de anteontem entre Costa e Catarina. Costa ganhou e Catarina perdeu. Costa ganhou porque conseguiu colar ao Bloco a imagem de partido irrealista e irresponsável. Catarina perdeu porque, além dessa falha, teve uma outra, ainda maior. Este era o debate em que a líder do BE devia ter atacado o PM, aprofundando até à exaustão os malefícios de uma maioria absoluta. Não o fez. Tocou no assunto lateralmente e não como um tema central do debate. Perdeu a oportunidade e perdeu o debate.

 

  1. Terceiro: dois partidos a tentarem resistir – PSD e CDS. Rio e Cristas estiveram ambos bem esta semana. Nas entrevistas e nos debates. Só que não estão aqui para ganhar eleições. Estão aqui, quando muito, para ganharem às expectativas mais baixas das sondagens. E o tempo provavelmente se encarregará de provar esta conclusão: se fossem juntos às eleições, seguramente impediriam uma maioria absoluta do PS. Indo separados, fizeram um favor a António Costa.

 

BLOCO É SOCIAL-DEMOCRATA?

 

  1. A surpresa política da semana foi a afirmação de Catarina Martins, em entrevista à Rádio Observador, dizendo que o Bloco tem um programa social-democrata.

 

  1. Acho que esta afirmação tem três problemas:
  2. O primeiro é que é uma afirmação de oportunismo político e eleitoral. Apenas para tentar confundir o eleitor, dando uma imagem de moderação e responsabilidade. É que ainda em Janeiro, também em entrevista ao Observador, a mesma Catarina Martins definia o Bloco como de "esquerda radical". O que sucedeu, no entretanto? Mudou a filosofia ou a ideologia? Não, mudou apenas o discurso, para eleitor ver.
  3. O segundo problema é que nada disto é genuíno. Tudo isto é um disfarce, uma dissimulação, uma ocultação da verdade. Parece que "vale tudo" só para conseguir ir para o Governo e conquistar eleitores moderados do centro. É isto que faz com que o Bloco assuste muito boa gente – tem uma roupagem moderada e uma agenda radical. Veste-se de cordeiro. Age como lobo.
  4. O último problema é que, no final, tudo isto acaba a descaracterizar e a incomodar o próprio Bloco. Os seus eleitores tradicionais sentem-se perplexos, confusos e baralhados. E a sua própria líder não tem a mesma desenvoltura e força política. Sente-se manietada e insegura, como se viu nos debates desta semana. É o que sucede quando o discurso é postiço e não convicto. Se isto não é o grau zero da política fica muito próximo.

 

ELEIÇÕES NA MADEIRA

 

Dentro de duas semanas teremos eleições na Madeira. Serão um balão de ensaio para as legislativas? Não creio. São eleições muito próprias da Região.

  1. Primeiro: são as eleições mais disputadas de sempre. Na Madeira as eleições sempre foram um passeio para o PSD. Desta vez a dúvida existirá até final.

 

  1. Segundo: seguindo as sondagens que são públicas, houve uma inversão nas tendências de votono início do ano, a previsão era no sentido da vitória do PS. Agora, a tendência aponta para a vitória do PSD.

 

  1. Terceiro: contra todas as expectativas, o PSD ganhou de forma esmagadora as eleições europeias. Ganhou com 12 pontos de diferença. Apesar do terramoto a nível nacional. E no Funchal, com Câmara PS, ganhou em todas as freguesias.

 

  1. Quarto: estas eleições já levaram a duas mudanças inesperadas. No PS, a escolha de um independente para se candidatar ao Governo (Paulo Cafôfo), contra a estrutura do PS local. No PSD, a união entre duas facções antes desavindas – Miguel Albuquerque e Alberto João Jardim.

 

  1. Quinto: a grande dúvida é o pós-eleições. Ganhando sem maioria, o PSD conseguirá coligar-se com o CDS? E o PS, perdendo as eleições, poderá fazer na Madeira uma geringonça semelhante à que fez no país em 2015?

 

FIM DA GREVE DOS MOTORISTAS

 

três comentários:

  1. Primeiro: é uma boa notícia. O país já está farto desta novela.

 

  1. Segundo: o que o sindicato alcançou agora foi o que recusou no início de Agosto, quando o Ministro Pedro Nuno Santos fez uma proposta de diálogo e negociação.

 

  1. Pergunta-se: afinal para que serviu a greve de Agosto? Porquê tanta inconsciência e tanto irrealismo? Havia necessidade?

 

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