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Luís Marques Mendes 24 de Maio de 2020 às 21:33

Marques Mendes: Costa e Rio "não têm a coragem de dizer a verdade" na venda do Novo Banco

As notas de Marques Mendes no seu comentário semanal na SIC. O comentador fala sobre a covid-19, a polémica do Novo Banco, a acusação a Ricardo Salgado, os candidatos presidenciais, a Festa do Avante e a crise no Brasil.

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A SEMANA QUE PASSOU, A SEMANA QUE VEM

 

  1. Faço um balanço positivo desta semana: primeiro, as pessoas estão a habituar-se a conviver responsavelmente com o vírus (o exemplo maior é o uso de máscaras); segundo, as pessoas estão gradualmente a perder o medo (a utilização das praias e o regresso aos restaurantes são bons sinais); terceiro, há mais gente na rua e mais trânsito nas estradas. O caminho é mesmo este: tratar da economia sem descurar a pandemia. Todos os sectores estão a adaptar-se.
  2. O mais difícil vai ser o turismo e a aviação. A recuperação não está fácil. Vejamos estes dados preocupantes:
  • Em Maio, a actividade dos nossos aeroportos foi de 2% comparada com Maio de 2019;
  • Para Junho, a previsão é de uma actividade correspondente a 20% da actividade de Junho de 2019;
  • Para Julho, a previsão é de uma actividade de 30% da de Julho de 2019;
  • Em Agosto, a previsão é de uma actividade de 50% em relação a Agosto de 2019.

 

  1. Falando de aviões. O distanciamento social aplica-se nos restaurantes, nos teatros, nos cinemas, em tudo. Mas não dentro dos aviões. Porquê? Resposta formal - o uso obrigatório da máscara dispensa o distanciamento. Resposta verdadeira - todos os Estados injectaram ou vão injectar muito dinheiro nas companhias de aviação. Logo, precisam de rentabilizar o investimento. 
  1. Programa de Estabilização da Economia.  PM vai ouvir os partidos.  Muito bem. O diálogo é essencial. Mas os partidos não se podem deixar anestesiar. O Governo está com um défice de escrutínio e os disparates acumulam-se:

 

O lay off foi uma vergonha. O Governo falhou na burocracia. Não cumpriu prazos de pagamentos. Prejudicou muitas empresas. É preciso que o lay off seja renovado e melhorado.

O que se passa com os enfermeiros é outra vergonha. Se estiverem de quarentena recebem 100% do salário. Se estiverem doentes com Covid 19, porque estiveram na linha da frente a trabalhar, só recebem 70%. Isto é aceitável? Mais ainda. Com os atrasos da Segurança Social há casos públicos de enfermeiros infectados que estão a receber por mês apenas uns irrisórios 65€ (caso testado pelo Polígrafo). O Governo não faz nada para corrigir isto?

O que se passa com a cultura e com as artes é dramático. Precariedade brutal; falta de acesso ao subsídio de desemprego e apoios da segurança social; nalguns casos joga-se mesmo a sobrevivência de muitas pessoas. No meio disto, a Ministra é uma inexistência política. Não se perdia muito se saísse com Centeno já no próximo mês de Julho.

Finalmente, a Justiça. Com tudo o que se passou não seria justo reduzir este ano as férias judiciais de mês e meio para um mês? O mês de Agosto não chegava? O Governo falou e recuou. Os partidos não fazem nada? 

 

 

A POLÉMICA DO NOVO BANCO

 

  1. Voltou esta semana (debate na AR) a polémica do Novo Banco. Com toda a demagogia e hipocrisia. Rui Rio e António Costa fazem de conta que não têm nada com o caso. E, todavia, PSD e PS aprovaram tudo.
  • Rui Rio mostra-se muito incomodado com o dinheiro que o Estado mete no NB. Mas qual é a surpresa? O PSD aprovou a Resolução do BES, acompanhou todo o processo e aprovou a venda. O que esperava?
  • António Costa é ainda pior. Parece que não sabe de nada, não conhece nada nem autorizou nada. Só que o contrato de venda foi negociado e aprovado pelo seu Governo. E no contrato lá estava uma almofada até 3,9 mil milhões a favor do comprador.

 

  1. É muito mau quando os nossos principais políticos – o PM e o aspirante a PM – não têm a coragem de dizer a verdade. A verdade é esta: a solução do NB foi má? Claro que foi. Mas as alternativas eram ainda piores: ou a falência do Banco, ou a sua nacionalização ou o seu desmembramento. Deixem de sacudir a água do capote. Assumam a verdade!

 

  1. Agora, há um ponto muito importante: os partidos têm dúvidas sobre se as verbas do Estado estão a ser bem aplicadas? Têm dúvidas sobre as imparidades? Têm dúvidas sobre a gestão da carteira de créditos? Querem conhecer o contrato de venda do Banco?


Então por que é que não fazem um inquérito parlamentar? Havendo dinheiro público em jogo e dúvidas sobre a sua aplicação, haja coragem para esclarecer e averiguar, pondo tudo em pratos limpos
. Até por uma razão: no próximo ano, o filme repete-se – o Estado vai ter de fazer nova injecção no Banco. Então aproveitem para esclarecer tudo em vez de fazerem de conta que não sabem de nada. Chega de demagogia e hipocrisia.

 

ACUSAÇÃO A RICARDO SALGADO

 

  1. Segundo o Expresso, o MP vai acusar Ricardo Salgado até ao Verão. Aquilo que podia ser uma boa notícia é uma vergonha monumental. No próximo Verão passam seis anos sobre a Resolução do BES. Ou seja, esta investigação ao BES e a Ricardo Salgado está prestes a fazer seis anos. Uma investigação criminal que precisa de seis anos para ser concluída é uma investigação que só merece censura. Não é assim que se faz justiça.

 

  1. Podem dizer: mas esta é uma investigação complexa. Mas os meios para investigar são escassos. Mas as autoridades suíças não colaboraram. É tudo verdade. Mas seis anos são seis anos. E não são seis anos para julgar ou concluir o caso. São seis anos só para investigar. Agora, pelo andar da carruagem, ainda vamos precisar de outros seis anos para instrução e julgamento.

Ricardo Salgado tem hoje 75 anos. Dentro de um mês terá 76. Quando tiver 80 ainda estará provavelmente a ser julgado. Isto é admissível? Claro que não.

 

  1. Não me canso de elogiar a justiça, desde logo o MP. Mas, neste caso, o nosso MP bem merece ser criticado. A investigação ao BES e a Ricardo Salgado é uma nódoa negra na actuação da nossa investigação criminal. Depois queixem-se de as pessoas não acreditarem na justiça.

 

OS CANDIDATOS PRESIDENCIAIS

 

  1. É tudo muito estranho o que se passa neste precoce debate presidencial. Comecemos pelo apoio de Costa a Marcelo – Alguns fingiram ficar muito surpreendidos. Mas qual é a surpresa?
Há mais de três anos que toda a gente falava disso. E nada tem de inédito. Cavaco Silva fez o mesmo em relação a Mário Soares há 30 anos.

Isto não significa que Marcelo Rebelo de Sousa tenha passado a ser socialista. Como há 30 anos, Mário Soares não passou a ser de direita por ter tido o apoio do PSD.

O que sucedeu há 30 anos e o que sucedeu agora é a mesma coisa. Cavaco Silva fez-se de forte mas não estava forte. Apoiou Mário Soares para evitar ter uma derrota eleitoral humilhante. Com António Costa é a mesma coisa. Ele faz-se de forte e apoia Marcelo apenas e só para evitar sair vencido e fragilizado das eleições presidenciais. Tão simples quanto isto.

 

  1. Adolfo Mesquita NunesUm potencial candidato. Nova estranheza.
É um político que não me tenho cansado de elogiar. Dos mais talentosos que Portugal tem. E tem todo o direito de se candidatar.

Mas é tudo muito estranho: primeiro, disse há menos de um ano que saía da vida política para se dedicar à vida profissional. Desdizer agora o que antes disse obriga-o a dar explicações e, com isso, a ficar à defesa e fragilizado; depois, corre o risco de não ter o apoio oficial do CDS, o que à partida é outra fragilidade; finalmente, corre o risco de ser acusado de dividir o centro direita, o que não é famoso para quem tem ambições políticas nessa área.

 

  1. Ana GomesOutra candidata em potência
Em 27 de Janeiro advoguei aqui que Ana Gomes se candidatasse. E continuo a achar o mesmo. É bom para a democracia.

Só que Ana Gomes cometeu, entretanto, dois erros: primeiro erro, já devia ter avançado com a sua candidatura, antes de Costa se pronunciar, jogando na antecipação; erro ainda pior, resolveu admitir a sua candidatura fazendo um discurso contra Costa, criticando-o de alto a baixo.

Hoje Ana Gomes é vista como a candidata anti-António Costa. Isso é mau. Torna a sua candidatura redutora e com menos condições. Muitos socialistas que até gostariam de a apoiar e organizar a sua campanha no terreno já não o farão porque não querem afrontar António Costa. O que é uma desvantagem séria para Ana Gomes.

 

  1. Finalmente, as candidaturas previsíveis de Ventura, do BE e do PCP. Aqui não há surpresas. Trata-se de cumprir coreografia política.

 

  1. As presidenciais estão transformadas em arma de arremesso político: dentro do PS os inimigos de estimação de António Costa aproveitam-se para tentarem fazer os seus ajustes de contas com o PM; à direita, algumas pessoas, insatisfeitas por não haver oposição e uma alternativa credível, lamentam que o PR não faça esse papel. Só que essa não é a função de um Presidente.

 

 

FESTA DO AVANTE

 

  1. Este é um problema sério para o PCP e para o Governo. Depois do conluio que houve entre os dois a propósito do 1º de Maio, PCP e Governo estão sob suspeita política. Se se gera uma nova situação de favor e o Governo abre um novo precedente, há o risco de as pessoas se indignarem a sério.

 

  1. A solução ideal era o PCP cancelar este ano a Festa do Avante por razões de saúde. Como já fizeram outros partidos em relação a iniciativas semelhantes. Como o PCP não vai fazer isso, impõem-se duas coisas:
Primeiro: que rapidamente a DGS estabeleça regras e condições sanitárias para a realização da Festa do Avante. Não pode ser em cima da hora. Tem de ser rapidamente para se evitar o facto consumado. E, já agora, que não sejam regras de conveniência.

Segundo: que as autoridades fiscalizem a sério o cumprimento das regras definidas. Para que não suceda o incumprimento que sucedeu no 1º de Maio. É também a autoridade do Estado que está em causa.

 

A CRISE NO BRASIL

 

  1. Decididamente os populistas são bons a capitalizar descontentamentos mas são um desastre a governar. Bolsonaro é o exemplo mais acabado disso mesmo. Ele está no epicentro de várias crises no Brasil:
Primeiro: uma crise de governo. Em três meses perdeu dois Ministros da Saúde, o Ministro da Justiça e a Secretária da Cultura. Incompetência à solta.

Segundo: uma crise de saúde pública. Com a sua irresponsabilidade, Bolsonaro lançou o país numa situação dramática. O Brasil é já hoje um dos países do mundo mais causticados pela crise da Covid 19.

Terceiro: uma crise política e de valores. As declarações de Bolsonaro no vídeo agora divulgado falam por si:
  • Mostram um Presidente não apenas patético mas também sem princípios, sem regras e sem valores;
  • Mostram um Presidente não apenas impreparado mas também autoritário e totalitário;
  • Mostram um Presidente em desespero e a caminho de uma destituição. É uma questão de tempo.
  1. É uma pena que um grande país como o Brasil tenha um Presidente tão pequeno e mesquinho quanto Bolsonaro. O único satisfeito é provavelmente Sérgio Moro – o poder pode cair-lhe nos braços mais cedo do que se imaginaria.

 

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