Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 06 de maio de 2018 às 21:17

Notas da semana

As notas da semana de Marques Mendes nos seus comentários na SIC. O comentador fala sobre os cortes nos fundos europeus, as tomadas de posições de membros do PS em relação a José Sócrates e sobre os vencedores e vencidos do campeonato de futebol português.

A MUDANÇA DE DISCURSO DO PS

 

  1.       Que o PS mudou de discurso em relação a Sócrates não há qualquer dúvida. Há, porém, três questões a esclarecer:

a)      Primeira questão: por que é que o PS mudou de discurso? Porque depois do caso Pinho o PS percebeu que tinha entre mãos uma bomba-relógio que podia rebentar a qualquer instante e que tinha um potencial enorme de desgaste eleitoral.

  •          Ou seja, depois do caso Pinho, o PS assustou-se: teve medo de ser contaminado; teve medo de perder votos; teve medo de perder a hipótese da maioria absoluta.
  •          Claro que o PS não mudou de discurso por convicção. Doutra forma, já o teria feito mais cedo. Mudou por calculismo político e eleitoral.
  •          O que prova que o PS é pragmático – fará tudo o que for preciso para ganhar eleições e tentar ganhar com maioria absoluta.

b)      Segunda questão: o que precipitou a mudança? O caso Pinho – foi um murro no estômago; as reportagens da SIC sobre o caso Sócrates – tiveram uma força brutal na opinião pública; as declarações assertivas de Ana Gomes e, finalmente, o desafio de Rui Rio a exigir a audição de Manuel Pinho.

  •          A iniciativa de Rio foi a gota de água que fez transbordar o copo. O líder do PSD "entalou" literalmente o PS. António Costa teve medo que Rui Rio capitalizasse politicamente e que o PS ficasse definitivamente fragilizado.
  •          E então decidiu estabelecer um cordão sanitário em torno da dupla Sócrates/Pinho e deitar "borda fora" tudo o que era politicamente indesejável.

c)      Terceira questão: a mudança foi combinada ou sucedeu por acaso? Claro que foi combinada. Em política não há coincidências destas. Tudo foi planeado com grande frieza e profissionalismo. E, para mostrar que nada sucedia por acaso, foi usada dose "cavalar" – em 48 horas, declarações de Carlos César, Fernando Medina, Santos Silva, João Galamba, Ana Catarina Mendes e no final o próprio Costa.

  •          Pensar em meras coincidências é do domínio da ingenuidade.

 

  1.       A questão final que se levanta é esta: o PS fez bem ou mal?
  •          Claro que fez bem. Mesmo sendo uma reacção tardia e por tacticismo eleitoral, esta demarcação é útil para o PS e benéfica para a democracia.
  •          Daqui a alguns meses os militantes e eleitores do PS ainda irão agradecer a Costa esta demarcação.
  •          Dentro do partido pode haver alguns militantes socráticos mais descontentes. Mas são uma minoria. No país, que é o que conta, António Costa fez a separação que lhe importava: de um lado o PS bom (o de Costa); do outro lado, o PS mau (o de Sócrates).

 

SÓCRATES SAI DO PS

 

  1.       Na reacção que teve, Sócrates foi igual a si próprio – reagiu com estrondo. Ele não é pessoa de meias-tintas. Pessoalmente, acho que ele já há bastante tempo planeava sair do PS e as declarações de César foram apenas um pretexto. Mas isso agora pouco interessa. O que importa é: por que é que Sócrates decidiu sair?

a)      Primeiro: porque percebeu que já não tinha nada a perder. Estava isolado no PS. Estava desconsiderado pelo PS. Não teria mais o apoio do PS;

b)      Segundo: porque quis mostrar publicamente o seu descontentamento com o PS e fazer-se de vítima. Ele adora vitimizar-se. Foi sempre assim e não vai mudar;

c)      Terceiro: porque tem a tentação de ser candidato presidencial para politizar a sua defesa judicial e embaraçar o PS. E é mais fácil apresentar-se como candidato sendo independente do que sendo militante do PS.

 

  1.       Entre prós e contras, quem mais ganha com este desfecho? O PS ou Sócrates? Julgo que o PS é, de longe, o mais beneficiado.
  •          Sócrates estava isolado, continua isolado. O PS estava encurralado, passou a ficar aliviado.
  •          Claro que Sócrates vai tentar fazer a vida negra ao PS. Ele é um "animal feroz". Só que a sua credibilidade é nula ou praticamente nula. Ao contrário, António Costa está em alta de credibilidade. Aos olhos do país, ele é a imagem do PS bom. Sem esquecer que é Primeiro-Ministro, com a economia a crescer e o desemprego a diminuir.
  •          Não é por acaso que hoje já colocou a questão eleitoral de 2019 no campo que lhe interessa ao dizer que as eleições do próximo ano se destinam a dizer se os portugueses o querem manter como PM.

O INQUÉRITO DO BE

 

Acerca do inquérito proposto pelo BE, há a considerar três questões:

 

  1.       Primeira: é uma reacção ao desafio de Rui Rio de requerer a audição de Manuel Pinho. A esquerda estava toda entalada. O PS reagiu demarcando-se de Pinho e Sócrates. O Bloco reagiu subindo a parada. Se o PSD quer uma audição, nós queremos ir mais longe. Ou seja: este inquérito é também uma manobra de táctica política.

 

  1.       Segunda questão: é uma jogada política inteligente. Primeiro, porque toda a gente acha bem que se esclareça a questão das rendas de energia; depois, porque ajuda o PS e tenta entalar o PSD e o CDS, mostrando que esta questão começou nos governos de Durão Barroso e de Santana Lopes. Ou seja: o Bloco quer meter tudo no mesmo saco. Mostrar que são todos iguais.

 

  1.       Finalmente: pode ser útil. Eu não acredito muito em Comissões Parlamentares de Inquérito. Muito menos em vésperas de eleições. Mas, admitindo que pode trabalhar de forma séria para esclarecer as questões das rendas de energia, então isso será um bom contributo para a democracia.

 

OS DEVEDORES DA CGD

 

  1.       Rui Rio teve, politicamente falando, uma grande semana. Provavelmente a melhor semana da sua liderança. Primeiro, no caso Manuel Pinho, precipitando a mudança da estratégia socialista; depois, exigindo oficialmente que o país saiba quem são os grandes devedores da CGD que ocasionaram um largo volume de prejuízos e imparidades.

 

  1.       A questão não é nova. Eu próprio levantei aqui a questão por mais de uma vez. O que é novo é que, pela primeira vez, um líder político suscita a questão com esta força e com este estatuto.

 

  1.       Aqui chegados, há três questões essenciais que se colocam:

a)      Primeira questão: esta exigência faz sentido? Claro que sim. Se o país "mete" milhares de euros na CGD, então que, ao menos, se possa saber quais foram as empresas, as pessoas ou os grupos que deram origem a tamanho buraco no Banco público. É transparente, é profilático e é responsabilizante.

b)      Segunda questão: a lei actual permite-o? Em princípio, não. Por causa do sigilo bancário. Por isso, a CGD e o Banco de Portugal legitimamente se opõem a tal divulgação. Só pode haver uma excepção a esta proibição: é existir uma Comissão Parlamentar de Inquérito que requeira estes dados. Aí o Tribunal da Relação de Lisboa já se pronunciou favoravelmente. Só que essa Comissão de Inquérito já existiu e já fechou sem aguardar conclusões. Não fará muito sentido repeti-la.

c)      Última questão: resta a hipótese de fazer uma mudança cirúrgica da lei. Que Rio já admitiu. E que deve avançar sem grande demora. Faz todo o sentido que assim seja. Será que Rui Rio vai ter coragem de romper com este secretismo? E os demais partidos estarão abertos a tal hipótese? Ficamos a aguardar as cenas dos próximos capítulos.

 


MENOS DINHEIRO DA EUROPA PARA PORTUGAL

 

  1.       Excelentes notícias para um português. Más notícias para Portugal. O português é Carlos Moedas. Tem feito um excelente trabalho como Comissário Europeu. E esta semana teve uma grande vitória. É um dos grandes vencedores, se não mesmo o maior, da nova distribuição de fundos dentro do orçamento da UE. Tinha um orçamento de 77 mil milhões na área da Ciência e Inovação. Passou para 100 mil milhões. Simplesmente extraordinário. O que prova que, além da importância do sector, Carlos Moedas tem um grande peso político dentro da Comissão Europeia.

 

  1.       As más notícias para Portugal são as seguintes:

a)      Uma já é pública: os fundos a distribuir pelos vários países da União Europeia terão em relação ao pacote anterior um corte médio de 7%.

b)      As outras notícias divulgo-as agora, em primeira mão:

  •          O "corte" de fundos para Portugal pode ser superior à média, de 7%. Segundo os serviços da Comissão, Portugal pode perder entre 10% e 15% relativamente ao pacote de fundos anterior.
  •          E porquê? Porque até agora o critério único de distribuição de fundos era o PIB per capita. A partir de agora, a par do PIB per capita (que contará cerca de 75%) haverá três novos critérios, todos eles desfavoráveis a Portugal.

 

c)      E quais são esses novos três critérios?

  •          As migrações;
  •          As alterações climáticas;
  •          O desemprego.

d)      Só que estes critérios, que a UE divulgará a 29 de Maio, são todos desfavoráveis a Portugal: temos poucos imigrantes; não somos dos mais afectados pelas alterações do clima; e o nosso desemprego é baixo.

  1.       Em conclusão: aqui fica um alerta, em primeira mão, ao Governo. Se até ao dia 29 de Maio o Governo não conseguir inverter esta situação, Portugal pode ter um "corte" nos seus Fundos de Coesão muito forte – entre 10% e 15%.

 

 

PORTO CAMPEÃO

  1.       FC Porto campeão nacional
  •          Foi uma vitória muito importante para o FC Porto. Acabou com o maior período de tempo sem ganhar nada da era Pinto da Costa (4 anos sem ganhar um único campeonato).
  •          O grande mérito é do treinador Sérgio Conceição. Liderou um plantel praticamente igual ao da época passada e incutiu-lhe uma forte dinâmica de vitória e um espírito ganhador que há anos andava arredado da equipa.
  •          Pinto da Costa também sai bem na fotografia. Apostou no treinador certo; interrompeu a dinâmica de vitórias do Benfica; e continua a ser o único Presidente com um penta campeonato no seu currículo.
  •          Questão interessante vai ser saber se Pinto da Costa quer aproveitar este momento de vitória para sair da presidência do FC Porto. Seria sair por cima, em glória. Mas não é líquido que tal suceda.

 

  1.       Benfica – o grande derrotado
  •          O Benfica é o grande derrotado desta época. Perdeu tudo. Perdeu na Liga dos Campeões; na Taça de Portugal e na Taça da Liga; perdeu o campeonato; perdeu a hipótese do Penta.
  •          O grande responsável, desta vez, não é o treinador. Claro que também teve falhas. Mas o grande culpado é , sobretudo, o Presidente Luís Filipe Vieira. Cometeu o erro estratégico de desinvestir em demasia na equipa. Vendeu jogadores a mais e não compensou com novas entradas. Se fez isto por deslumbramento, arrogância ou falta de visão, pouco importa. O que importa é que cometeu um erro estratégico enorme.
  •          Assim, o presidente perdeu em toda a linha: perdeu a hipótese do Penta, algo histórico e raro; perdeu financeiramente; perdeu a hipótese de fragilizar Porto e Sporting; e perdeu a quase unanimidade que tinha no clube.

 

  1.        Sporting salvou a face.
  •          O Sporting não ganhou o campeonato, que era o seu grande objectivo.
  •          Mas salva a face – Taça de Portugal; Taça da Liga; boa presença na Europa; e pode ainda conseguir o segundo lugar no campeonato.
  •          O grande mérito é de Jorge Jesus. Num momento crítico para o clube, mostrou qualidades a sério de liderança. Foi ele o grande factor de moderação e de união dentro do clube.
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