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Miguel Pina e Cunha - Professor 30 de Agosto de 2012 às 23:30

Crimes lesa-majestade e o fim da liderança à antiga

A morte de Ampon Tangnoppakul pode tornar-se um símbolo do desejo de mudança na Tailândia, onde os crimes lesa-majestade são um poderoso meio de controlo social, que permite proteger a monarquia e os interesses dominantes.

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Este maio morreu num hospital tailandês um homem sentenciado o ano passado com uma pena de vinte anos. O seu crime: o envio de quatro mensagens de texto consideradas insultuosas para a família real. Ampon Tangnoppakul tornou-se conhecido, depois de condenado, como "Tio SMS". A sua mulher soube do óbito quando o ia visitar à prisão, de onde tinha sido transferido depois de sentir dores de estômago. A morte de Ampon gerou uma onda de protestos contra o artigo 112 da constituição nacional tailandesa, que consagra os crimes de lesa-majestade. O número deste tipo de crimes tem aumentado nos últimos anos, o que tem agravado os direitos humanos no país.

A morte de Ampon Tangnoppakul pode tornar-se um símbolo do desejo de mudança na Tailândia, onde os crimes lesa-majestade são um poderoso meio de controlo social, que permite proteger a monarquia e os interesses dominantes. Todavia, as novas tecnologias de comunicação tornam difícil manter este tipo de censura de forma eficaz. As tecnologias de comunicação e mobilização social são, cada vez mais, alavancas de distribuição/dispersão de liderança. A tecnologia é uma força de mudança profunda em termos do exercício da liderança. A liderança é por isso, cada vez mais, um processo distribuído. Cada um de nós é um potencial líder e ativista. Os estados e as organizações têm de preparar-se para esta mudança.

A explosão de protestos na Tailândia, mas também, por outras razões, na Grécia, Espanha, EUA e todo o arco de países participantes na chamada primavera árabe, mostra uma mudança importante no processo de liderança. A liderança vai sendo dessacralizada, os líderes ficam menos protegidos em torres de marfim, as monarquias (veja-se o caso de Espanha) perdem as proteções decorrentes do seu estatuto acima e à parte da sociedade. O poder de líderes e seguidores torna-se mais simétrico. Este é, num certo sentido, o fim da liderança tal como a conhecemos. "The End of Leadership" é precisamente o título do mais recente livro de Barbara Kellerman, autora de "Followership" (2008). No novo livro, Kellerman explica como num mundo em mudança (social, tecnológica, política), também a liderança precisa de adquirir novos contornos. Se tem funções de liderança, caro leitor, este livro pode interessar-lhe. Ele abre uma janela sobre o futuro provável da liderança: mais dispersa, mais tumultuosa, menos baseada no respeito hierárquico e na obediência. O mundo novo pode ser – não sabemos – mais ou menos admirável. Mas diferente será certamente.

Para aprofundar este tema:
Kellerman, B. (2012). The end of leadership. New York: HarperBusiness.
Professor catedrático, Faculdade de Economia, Universidade Nova de Lisboa
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Texto escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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