Miguel Pina e Cunha
Miguel Pina e Cunha 11 de junho de 2015 às 19:00

Lições da queda da YDreams

A popularidade de programas como "Shark Tank" é importante para levar mais jovens a desejar empreender, mas não nos iludamos: empreender não é ter ideias, é transformar boas ideias em bons negócios.

A revista Sábado publicou há semanas uma interessante peça sobre a YDreams, à qual deu o título "YDreams, a queda de um mito". Mais do que a queda de um mito, a ascensão e a queda da YDreams oferece um conjunto de interessantes pistas para reflexão, que ultrapassam o estrito julgamento do seu fundador, António Câmara.

 

A primeira lição: António Câmara sonhou alto e queria fazer uma empresa mítica. Nada de errado. Pelo contrário. Sonhar alto é uma característica dos empresários que mudaram o mundo. Ou, como disse o poeta, o sonho comanda a vida - e isso inclui os sonhos empresariais. Um empreendedor que sonha pouco abre mais um café na esquina.

 

Segunda lição: a empresa era excêntrica, tinha um armazém para pranchas de surf e uma sala de descanso. Outras empresas têm o mesmo e não se dão mal com isso. Yvon Chouinard, fundador da Patagonia, uma bem-sucedida empresa de vestuário para "outdoor", escreveu um livro chamado "Let my people go surfing". Sejamos claros: uma empresa não tem de ter salas de descanso, mas ter uma sala de descanso não significa que as pessoas andem descansadinhas.

 

Terceira lição: os empreendedores trabalham com ideias. É verdade. Mas as ideias são apenas o começo. Vista de fora, a YDreams era uma empresa com muitas ideias (positivo), mas com dificuldade em transformá-las em produtos desejáveis (negativo). A popularidade de programas como "Shark Tank" é importante para levar mais jovens a desejar empreender, mas não nos iludamos: empreender não é ter ideias, é transformar boas ideias em bons negócios.

 

E nesta transformação terá estado o busílis da questão YDreams: uma empresa de engenheiros de base académica não terá sido capaz de desenvolver as necessárias competências de gestão. E sem elas, as ideias podem nunca se transformar nos negócios que alimentarão a busca de novas ideias. A dupla Honda/Fujisawa fez da Honda aquilo que ela é. O engenheiro brilhante (Honda) não teria ido longe sem o rigor gestionário de Fujisawa.

 

Nesse sentido, em vez de praticar a portuguesa "schadenfreude", talvez seja melhor apreciar a coragem e a visão de Câmara e esperar que os futuros engenheiros possam aprender com a YDreams o que se deve fazer, mas também o que não se deve fazer. E não esquecer que, no mundo dos negócios, a competição é feroz e que perder não é vergonha nenhuma. Mas desistir sim. E não aprender, ainda mais.            

 

 

Professor na Nova School of Business and Economics

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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