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Miguel Pina e Cunha - Professor 06 de Novembro de 2014 às 20:20

O elogio do n.º 2

O mundo está meio cheio (ou meio vazio) de líderes heroicos. É certo que o herói de um é o vilão de outro, mas esses líderes atraem enormes doses de atenção. Todos gostaríamos de ser como eles. A verdade é que o mundo precisa tanto de líderes-heróis como de bons números 2. Este texto é por isso dedicado, sem ironia, aos bons número 2.

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Liderar, ao contrário do que se vê nos filmes, é um trabalho de equipa. Um bom líder lidera com outros. Precisa de se rodear de pessoas capazes de o/a complementar. Em quem possa confiar. Trata-se de uma história antiga. Caso o leitor não esteja convencido da bondade do argumento, eis um conjunto de tentativas para o/a fazer refletir sobre o assunto:

 

1. A saga "O Senhor dos Anéis" é um bom exemplo de que a liderança é um exercício partilhado. No final, a missão é cumprida não por causa de um herói mas apesar dele, porque muitos anónimos atuaram heroicamente. Como na vida real, o herói entrega-se por vezes ao desespero e ao desânimo. Nessa altura, precisa que o liderem. No livro de Tolkien, os personagens mais insignificantes são críticos. São, mais que figurantes, líderes invisíveis, a tempo parcial.

 

2. Na vida real as coisas não são muito diferentes. A heroica Anne Mulcahy, responsável por uma gloriosa recuperação da Xerox, contou que ao final de um dia, meteu-se no carro para regressar a casa. Estaria como todos nós nos sentimos às vezes: não lhe apetecia ir para casa nem ficar no trabalho. A solução seria desaparecer. Lembrou-se então de escutar as mensagens não atendidas. Numa delas, um colega da administração deixou-lhe um recado com este teor: "Anne, sei que hoje tiveste um dia mau. Mas amanhã é outro dia e lá estaremos contigo." O liderado liderou a sua líder. Energizou-a.

 

3. Vem esta discussão a propósito de um magnífico documentário que aí anda: "A dois passos do estrelato". Trata-se de uma sentida homenagem às "back up singers", aquelas cantoras que ninguém conhece, mas sem as quais as canções que amamos não seriam as mesmas. O concerto da vida deste colaborador do Negócios teve por ator principal o grande Leonard Cohen (de quem há álbum novo). Mas as vozes das desconhecidas cantoras que o acompanhavam ainda lhe permanecem na memória. O facto de não serem conhecidas não lhes retira importância. Apenas mostra que as boas organizações precisam de estrelas que brilham discretamente, no apoio às mais conhecidas.       

 

4. Este é o ponto de Zweig no artigo "Managing invisibles" (Harvard Business Review, maio de 2014). As organizações são um campo de heróis, mas muitos deles são heróis desconhecidos.

 

5. Philip Zimbardo defendia há uns anos, numa passagem pelo ISPA, que o mundo precisa de "heróis normais". Sem eles, o mal prevalece. E o que fazem os heróis normais? O que é preciso ser feito. Estão lá, em vez de fingir que nada viram.    

 

Celebremos, portanto, os heróis de todos os dias: a cantora que faz o coro de "Young Americans", o colega que deixa uma nota de apoio, ou o desconhecido que revela uma amabilidade desinteressada. A maioria dos heróis é mesmo assim. Estimemo-los, para que o seu exemplo possa frutificar.

 

Professor na Nova School of Business and Economics

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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