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Miguel Pina e Cunha 16 de Agosto de 2013 às 00:01

O Presidente Maduro e os pássaros da liderança

Talvez esteja na altura de desenvolver, pois, uma teoria ornitológica da liderança. Aquele que assina não está com tempo para a fazer, mas fica a ideia como sinal da sua generosidade.

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A liderança é um processo fascinante por se apresentar de tantas e tão variadas formas. Aos líderes poderia também ser aplicada a máxima de Tolstói: todos os bons líderes são parecidos, mas cada mau líder é mau à sua própria maneira. Vem esta abertura a propósito de dois dos líderes políticos que em dezembro estarão nas listas dos balanços anuais. Um dos casos já não traz muita novidade apesar de se tratar de um novo líder: Kim Jon-un, o ungido da Coreia do Norte. Os fenómenos naturais que acompanham o nascimento dos líderes semi-divinos da Coreia comunista ultra-nacionalista são já conhecidos, pelo que não vale a pena reiterá-los. 


Mas há um novo caso de liderança com laivos de pré-modernidade, desta vez na Venezuela. Nicolás Maduro, o novo presidente, ajudou a que possamos compreender melhor uma certa forma de exercer a liderança e ativar as suas bases. Maduro garante que Hugo Chávez, o falecido comandante, lhe falou durante a campanha eleitoral através de um passarinho pequenino. Eis o seu discurso direto: "‘De repente entrou um passarinho, pequenininho, e deu-me três voltas aqui em cima’, disse, apontando para a cabeça. ‘O pássaro parou numa viga de madeira e começou a cantar. Fiquei a vê-lo e então também eu cantei para ele. ‘Se tu cantas eu canto’. E cantei. O passarinho estranhou-me? Não. Cantou um pouquinho, deu uma volta, foi embora e eu senti o espírito dele". Dele, entenda-se, de Chávez, não do pássaro propriamente dito.

No Diário de Notícias, Bernardo Pires de Lima explicou a situação da seguinte forma:

"Quando um candidato a líder de uma nação com a importância da Venezuela diz que Chávez teve dedo na eleição do Papa, que lhe apareceu em forma de um "pajarito chiquitito" e que quer montar gabinete junto aos seus restos mortais, entramos num filme de animação de baixo custo, estupidificante para os eleitores. Maduro pode vencer com facilidade esta eleição [não venceu, como se sabe: o resultado foi "uma diferença mínima e inesperada": 50,75% contra 49,98% do seu adversário, Capriles], mas não significa que ganhe o país, lhe dê coesão e maturidade. Maduro, só mesmo o apelido."

No "Financial Times", Daniel Lansberg-Rodríguez acrescentou que aquilo que em Chávez era tolerado em nome do fervor revolucionário e de uma certa excentricidade carismática, em Maduro é tomado como sinal de uma estranha forma de "espiritualidade". Por outras palavras, acrescenta o colunista, o homem é visto por muitos, simplesmente, como "loco".

Voltemos ao princípio: cada um tem o direito de acreditar nos sinais de liderança que quiser, mas parece haver aqui um facto por explorar: a presença das aves na emergência de lideranças carismáticas em algumas partes do mundo contemporâneo. Talvez esteja na altura de desenvolver, pois, uma teoria ornitológica da liderança. Aquele que assina não está com tempo para a fazer, mas fica a ideia como sinal da sua generosidade.

Professor na Nova School of Business and Economics
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Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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