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Miguel Pina e Cunha - Professor 12 de Janeiro de 2012 às 23:30

Precisa o mundo de líderes empresariais virtuosos?

O tempo não está para lirismos, dirão os mais realistas. Mas a investigação vem mostrando que gerir virtuosamente é, além de desejável em si mesmo, um caminho para a boa gestão. Lirismos à parte.

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O tempo não está para lirismos, dirão os mais realistas. Mas a investigação vem mostrando que gerir virtuosamente é, além de desejável em si mesmo, um caminho para a boa gestão. Lirismos à parte

Nos tempos que correm, parece justo reconhecer que o mundo dos cidadãos comuns anda zangado com o mundo empresarial. Poder-se-á argumentar dizendo que essa zanga não é justa porque as empresas são a mais poderosa força de mudança positiva alguma vez inventada para resolver os problemas da humanidade. Não será este colaborador do Negócios a discordar. Mas estarão as vozes de protesto destituídas de razões? Várias publicações insuspeitas de tendências anti-empresariais têm dito que não. Uma vez mais, não é o que assina que dirá que assim não é.

Que razões têm as pessoas? Uma boa resposta foi dada por António Pinto Leite, presidente da ACEGE, em entrevista ao "Diário Económico", a propósito da obsessão pelo lucro: "Veja o chorrilho de asneiras e de riscos em que o mundo entrou devido a essa obsessão", acrescentando que "o despique trimestral da economia de elite trouxe-nos a uma situação de empobrecimento que não faz sentido". O ponto é valioso: o mundo precisa de empresas porque elas são uma força positiva, mas algumas empresas são mais positivas que outras. E, claro, uma parte delas é mesmo, como defendeu Jeffrey Pfeffer, de Stanford, socialmente poluente.

Sejamos claros: em qualquer área da ação humana haverá sempre os bons, os maus e os vilões. Mas o mundo "corporate" tem prestado talvez menos atenção do que a necessária a uma faceta crucial da vida empresarial: a sua dimensão humana. As empresas são coletivos sociais e as pessoas podem fazê-las e desfazê-las. Bons colaboradores bem geridos não são o alfa e o ómega da gestão. Mas são cruciais. Regressemos a Pinto Leite: "Critérios de gestão cristãos fazem as pessoas felizes e pessoas felizes fazem pessoas competitivas. É este conjunto que faz uma sociedade."

Mas serão estas ideias algo mais do que isso mesmo? Ideias boas mas impraticáveis nas arenas competitivas onde se movem as organizações? Investigação recente no campo dos chamados estudos organizacionais positivos vem revelando que aquelas organizações que de uma forma deliberada e consistente enfatizam o positivo podem obter melhores resultados num conjunto de indicadores de gestão incluindo os financeiros.

Uma importante contribuição recente foi trazida por Kim Cameron, de Michigan, e seus coautores. Esta equipa estudou dois casos, o de uma empresa financeira e outra hospitalar, com o intuito de medir os efeitos de práticas positivas ao nível da eficácia organizacional. Os resultados são encorajadores, revelando que as práticas positivas (aquelas que conferem ao contexto profissional, por exemplo, respeito, integridade, inspiração, significado, perdão) têm um impacto favorável em resultados como o desempenho financeiro, a percepção de eficácia dos executivos seniores e a retenção de colaboradores.

Um estudo com duas organizações não corrobora o argumento de uma forma categórica mas junta-se a outros que têm encontrado associações positivas entre práticas de gestão humanistas, isto é, orientadas para a eficácia virtuosa, e resultados organizacionais valiosos.

Após a intoxicação coletiva dos últimos anos, as organizações terão vantagem em recuperar a velha e por vezes esquecida noção de virtude. Tal como se discute noutro local, os líderes virtuosos não são ingénuos, mas sim pessoas realistas que sabem que a virtude está no meio: "aqueles que praticam a "média dourada" são mais eficazes e felizes, e são melhores promotores do desenvolvimento económico e social e do bem comum. Tal como uma boa alimentação, um bom líder não é insosso nem salgado." Às organizações e aos que as comandam exige-se comportamento virtuoso e não apenas obtenção de resultados. O tempo não está para lirismos, dirão os mais realistas. Mas a investigação vem mostrando que gerir virtuosamente é, além de desejável em si mesmo, um caminho para a boa gestão. Lirismos à parte.



Para desenvolver o tema:
• Cameron, K.S., Mora, C., Leutscher, T. & Calarco, M. (2011). Effects of positive practices on organizational effectiveness. Journal of Applied Behavioral Science, 47(3), 266-308.
• Rego, A. & Cunha, M.P. (2011). Liderança: A virtude está no meio. Lisboa: Actual.

Este artigo de opinião foi redigido em conformidade com o novo Acordo ortográfico.

Professor catedrático, Faculdade de Economia, Universidade Nova de Lisboa
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