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Miguel Pina e Cunha 08 de Março de 2017 às 20:32

Trump, CEO da América 

Neste seu período inicial, Trump tem sido um chefe desconcertante. Para quem estuda liderança, trata-se de um caso de estudo a acompanhar com interesse.

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Mas o interesse é mais do que académico: o que ele faz toca a todos. Eis um conjunto de razões para seguirmos este Presidente que nos caiu da América.

 

Trump faz o que disse que ia fazer. Os políticos em campanha são frequentemente acusados, com justiça, de dizerem uma coisa e fazerem outra. A ideia é que a campanha se desenrola segundo uma lógica que implica uma visão, digamos, fluida, das regras do jogo. Em tal contexto todos esperamos que algumas promessas sejam apenas boas intenções sem tradução prática. Ora Trump tem feito aquilo que disse que ia fazer. Devemos por isso ficar satisfeitos ou antes preocupados? Ou as duas coisas?

 

Trump é o Presidente dos EUA que, em Portugal e não só, a maioria gosta de não gostar. A direita não gosta do seu iliberalismo. A esquerda não gosta do seu capitalismo. Curiosamente todos podiam ter motivos para o defender. À direita, porque Trump encarna alguns valores da América profunda, como a desconfiança face ao Estado grande. À esquerda, porque ele gosta tanto da União Europeia como a extrema-esquerda. E foi eleito pelo povo, sem o favor das elites. Todavia, nem um lado nem o outro o têm recomendado. O homem diz-se amigo dos russos, mas a esquerda não gosta dele; gosta de "big business", mas a direita não o aprecia.   

          

Trump é um homem de ação. Manda. Isso devia agradar a quem gosta de autoridade. Gere a América como quem administra um negócio familiar. Quem se lhe opõe arrisca-se a acabar despedido. "The Apprentice" passa-se agora no cenário da Casa Branca. Mas mesmo quem gosta de uma versão musculada da autoridade desconfia dele. Quem não gosta também desconfia, apesar de o homem ter um lado subversivo e um manifesto desrespeito pelas instituições. Trump quebra regras e protocolos em nome da autoridade. É uma espécie de imobiliário anarquista que todavia não suscita o entusiasmo nem dos banqueiros nem dos anarcas.

 

Finalmente, num mundo em que os líderes são criticados pela falta de autenticidade, Trump é autêntico. O que agora vemos nele é o que sempre vimos. Todavia, esta consistência não tem suscitado encómios. O jornal Organizational Dynamics publicou em 2015 um artigo sobre irresponsabilidade autêntica. Talvez se possa aplicar ao Presidente: ele é um autêntico irresponsável ou um irresponsável autêntico? Critica os jornalistas que não papagueiam a sua versão dos factos, contrapondo aquilo que chama de "factos alternativos". E não se trata de mentir mas, dizem eles, de atuar num registo de pós-verdade.

 

Há uns anos, Chatterjee e Hambrick escreveram sobre a diferença entre líderes narcisistas ou não narcisistas. A conclusão é que os resultados não são necessariamente diferentes, mas que a jornada é mais agitada. Toca a apertar o cinto: a animação promete continuar.                           

 

Para aprofundar este assunto:

Chatterjee, A., & Hambrick, D. C. (2007). It's all about me: Narcissistic chief executive officers and their effects on company strategy and performance. Administrative Science Quarterly, 52(3), 351-386. 

 

Professor na Nova School of Business and Economics

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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