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Miguel Varela 04 de Março de 2020 às 20:30

As velocidades e o futuro do mundo

Um mundo global precisa de uma organização supranacional, como um Governo Mundial, capaz de impor, de forma legítima, políticas e soluções, também elas, globais.

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O ser humano dependeu milhares de anos da agricultura, dependeu cerca de 200 anos da indústria e depende há cerca de 20 anos de uma sociedade globalizada de serviços, ainda com contornos pouco definidos. O setor terciário solidificou a sua posição de maior contribuinte para o PNB mundial e também de principal empregador da população ativa, sedimentando a economia do intangível há várias décadas e sempre em tendência de crescimento.

 

É certo que em qualquer transição estrutural económica, herdam-se realidades e instituições da organização social antecedente. Existem problemas novos que emergem à escala mundial, mas que se procuram resolver com instituições e soluções da era industrial, o que claramente não tem resultado. Dir-se-ia que as instituições não acompanharam o ritmo de mudança económica e social dos últimos 20 anos, incapazes de apresentar soluções quer para problemas antigos, quer para problemas novos. O sistema já não se adapta à estrutura, nem a estrutura ao sistema. Sendo a estrutura mais rígida, será mais fácil, de futuro, mudar o sistema.

 

De facto, a velocidade e o ritmo de inovação das últimas décadas, em todos os domínios, não têm qualquer comparação com outro período da história da humanidade. Se considerarmos um intervalo de 20 anos, a geração que hoje tem 40 anos de idade está muito mais próxima da geração que hoje tem 60 anos do que da que tem 20 anos. Mudaram vertiginosamente os hábitos, a tecnologia, os interesses, as culturas, a organização familiar e com isto o modo de ver e viver a vida e o mundo.

 

Podemos afirmar que vivemos num mundo de incerteza em que o longo prazo é cada vez mais curto, devido às vertiginosas dinâmicas sociais e económicas, que dificultam ou mesmo impossibilitam planos a mais de um ano, sem prever contingências. Os recursos naturais e a poluição necessitam de soluções conjuntas bem como a economia, a saúde (como o Covid-19 tem demonstrado), a educação ou os desequilíbrios e as migrações. O hemisfério norte do planeta continua a concentrar mais de 70% da riqueza mundial e cerca de 30% da população do planeta. Ao invés, no hemisfério sul, concentram-se cerca de 30% da riqueza produzida e 70% da população. O mundo é cada vez mais interligado na economia, na saúde, na tecnologia e na comunicação, mas continua "desequilibrado". É um quadro potencialmente explosivo para um planeta que se pretende global, não sendo compatível, muito mais tempo, com políticas muito mais reativas do que proativas.

 

A desagregação parece agora contrariar os princípios das tendências de união e até unificação que se verificaram desde meados do século passado. Recentemente publicado, o Mapa de Risco Político 2020 (consultora Marsh e agência Fitch) alerta que se irá agravar a transição para uma nova ordem mundial multipolar causando novos desafios relativos ao comércio livre, tendo em consideração a pontuação global de risco político em mais de 200 países. As incertezas do Brexit, as eleições norte-americanas, as relações entre a Rússia e o Ocidente, as tensões políticas no Médio Oriente, a instabilidade política, económica e social de vários países da América Latina e de África, poderão no seu conjunto constituir fatores de risco, que afetarão a geopolítica e as estratégias de empresas e organizações multinacionais.

 

Este mapa, em linha com o Relatório de Risco Global 2020 (WEF), prevê um crescimento da polarização política e económica durante 2020, ameaçando "o clima, ambiente, saúde pública e sistemas tecnológicos" no globo. Poderá verificar-se um "incremento das divisões entre nações, a par de uma desaceleração da economia global" potenciando "turbulência geopolítica" e "um mundo unilateral instável". Sendo que as estratégias individuais das grandes potências mundiais dependem dos seus líderes e dos interesses das respetivas nações é muito natural que estas funcionem em detrimento de estratégias de interesse "global".

 

Um mundo global precisa de uma organização supranacional, como um Governo Mundial, capaz de impor, de forma legítima, políticas e soluções, também elas, globais.

 

Diretor do ISG

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