Nicolau do Vale Pais
Nicolau do Vale Pais 06 de novembro de 2015 às 10:12

A agonia: o problema não é o acordo hoje, é o governo amanhã

Este secretismo de alcofa durará até ao dia em que o discurso tenha de sair da contestação para o poder. Nesse momento, as "esquerdas" vão ter de se confrontar com tudo o que não fizeram ao longo dos últimos 20 ou 30 anos.

"Afonso IV: Oh ceptro rico, a quem te não conhece,
como és formoso e belo!
(…) De uma alta fortaleza, estamos sempre
postos por atalaias à Fortuna"

in "A Castro", de António Ferreira, - publicada em 1587.


Em "A Castro", de António Ferreira - expoente máximo do teatro renascentista em língua portuguesa - o drama lírico constrói-se à volta do dilema de Afonso IV, pai do diabolicamente enamorado e irascível D. Pedro. De um lado, estão as razões de Estado que clamam pela morte imediata de D. Inês; do outro, as razões sentimentais de um pai e avó que também é Rei. Muitas vezes lida como história de amor, a peça é de facto um drama político cuja acção - como na Tragédia Grega - não pode deixar senão de conduzir à catarse pela compaixão. O aviso é claro: estamos todos sempre "postos por atalaias à fortuna", isto é, obrigados a trazer o destino no horizonte. Não foi por nenhum acaso pedagógico ou didáctico que o Teatro e a Democracia nasceram em berços geminados, mas pelo facto de ambos serem formas de nos representar na consciência profunda da nossa fragilidade. O poder - representado no verso de Ferreira por um "ceptro" - é sempre mais brilhante visto de fora.

A narrativa ainda inacabada do acordo tripartido tem tido o efeito espantoso de conseguir não tocar em nada do que é essencial em termos de diagnóstico, sendo que o mais importante é que a nossa economia - também ela responsabilidade da esquerda - não se sustenta, não cresce. Daí o défice, daí a dívida. Assim sendo, na minha óptica, o problema não é o acordo, mas o Governo que dele possa nascer. No essencial, este secretismo de alcofa durará até ao dia em que o discurso tenha de sair da contestação para o poder. Nesse momento, as "esquerdas" (*) vão ter de se confrontar com tudo o que programaticamente não fizeram ao longo dos últimos 20 ou 30 anos, em termos de modernização do diagnóstico e da acção, e com tudo o que procrastinaram para não terem de ver a chamada "economia de mercado" como um garante de uma sociedade aberta e próspera.

Eu também não gosto de ver a soberania - o tal "ceptro rico" de que fala Ferreira - ameaçada por uma "financização" de casino; mas ela lá está, como o destino, e do Estado Social ao SNS, não há nada de civilizado que não tenha hoje de contar com o dinheiro que de lá chega. Tal crua realidade não deixará - caso haja Governo - de nos deixar de careca à mostra: o processo a que estamos a assistir não é político, é de poder. E, mais uma vez, o nosso regime se vulnerabiliza, pondo-se sempre a jeito para o próximo "Passos". Na noite de dia 4 de Outubro, António Costa estava num beco sem saída; decidiu começar a mandar para lá os transeuntes, na esperança que a turba pudesse dar alguma sugestão útil sobre como fazer de conta que a responsabilidade não é o desígnio máximo da democracia. O problema não é o acordo hoje, é o Governo amanhã: Costa lançou o país numa interminável agonia, que só serve para não vermos a raiz do problema, muito dele adubado pelos Governos de que foi ministro e vice-primeiro-ministro.

Que interessa tudo isto? Muito - é que o Governo, se o houver, não é "das esquerdas", é de Portugal. E esta fachada é, em si, um péssimo começo para a Governação.


(*) Ponho entre aspas porque a assunção de que o material político que PS, PC e Bloco defendem é que é "a esquerda" é mais uma idiotice demagógica destinada a criar uma lamentável fractura que só serve os contestatários profissionais - quem disse que não houve gente de esquerda a votar PàF ou gente de direita a votar Bloco? Sem mais comentários.

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