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Nicolau do Vale Pais 10 de Abril de 2015 às 10:14

Alemanha-Sul da Europa: são "onze contra onze"… e, no fim, ganha o Putin

Não se espantem que, no particular ensejo de compreender as diferenças entre Portugal e Alemanha, "Aniki-Bóbó", de Manoel de Oliveira, ou "As Asas do Desejo", de Wim Wenders, se revelem bem mais eficientes do que qualquer debate televisivo ou comício político.

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No final da semana passada, Miguel Sousa Tavares responde em artigo a um leitor seu do Expresso, que lhe tinha enviado uma carta (que o jornal entretanto publica, no correio do leitor). O leitor é Wolfgang Kemper, um alemão radicado em Portugal há cinquenta anos, que foi director da Hoechst (indústria química e farmacêutica) e que hoje dirige um negócio de fios de pesca, a Filkemp, conforme o próprio explica.


Não conheço pessoalmente nenhum dos dois; li atentamente os argumentos de ambas as partes e, no fundo, eles reflectem a angústia geral e a vulnerabilidade política em que esta nossa Europa, de projecto de federação falhado, se encontra. Nesse particular, a Alemanha - ou o poder alemão - é muito mais responsável por esta contemporaneidade do que Portugal; mas como não podemos andar armados em néscios, e ver a integração monetária como "problema do continente e não nosso", manda a defesa do livre-arbítrio que cada um assuma as suas responsabilidades - em Portugal fizeram-se cavalidades com alto patrocínio de política, banca e indiferença das elites, de bradar aos céus. Imaginemos Alberto João Jardim com vizinhos como a Síria, ou Cavaco Silva à frente de uma economia do G8, e já devem ter chegado à mesma conclusão que eu: os "deles" não são piores que os "nossos" - é tudo uma questão de escala e, lá como cá, a política parece insistir em representar apenas o pior.


De facto, assumir que polémicas, política, economia ou história explicam todos estes milhões de pessoas e os séculos em que se inscrevem, parece-me limitado. E perigoso. Por mais que o discurso "social-democrata" seja para uns mera conveniência anti-socialista, há respostas que só se encontram quando começamos a pensar de, e a partir de, outros vectores. Como a Cultura, por exemplo; não se espantem que, no particular ensejo de compreender as diferenças entre Portugal e Alemanha, "Aniki-Bóbó", de Manoel de Oliveira, ou "As Asas do Desejo", de Wim Wenders, se revelem bem mais eficientes do que qualquer debate televisivo ou comício político.


Não é por acaso que durante o período histórico em que se fundaram os Estados-Nação que hoje presidem à nossa Paz - o Romântico -, homens como Almeida Garrett tenham feito do Teatro defesa intransigente, ou vultos como Schiller tenham defendido a leitura universalista da História, como forma de defender o nosso destino comum.


Enquanto escrevo, Alexis Tsipras visita Putin, e os primeiros relatos dão conta de conversas sobre uma "primavera". Eu, da de Praga ainda me lembro, e também do que se lhe seguiu. É sempre uma lição ver um tipo de extrema-esquerda, que está num governo de coligação com a extrema-direita, apertar a mão a um facínora de extrema-perfídia. Diz muito sobre onde todos falhámos e Marine Le Pen - que recebe em rublos o apoio para as suas campanhas - há-de ter adorado.


Fica um trecho de Milan Kundera (de "A Lentidão") para o "in-homenageável" Manoel de Oliveira, que nos deveria abrir os olhos e as orelhas: "Há um vínculo secreto entre a lentidão e a memória, entre a velocidade e o esquecimento. Evoquemos uma situação trivial: um homem caminha pela rua. Tenta lembrar-se de algo, mas falha-lhe a memória. Nesse momento, abranda o passo. Pelo contrário, quando alguém tenta esquecer um incidente penoso que acaba de acontecer, acelera o passo sem dar-se conta disso, como se quisera afastar-se rapidamente daquilo que, no Tempo, se encontra demasiado próximo dele (…). O grau de lentidão é directamente proporcional à intensidade da memória; o grau de velocidade é directamente proporcional à intensidade do esquecimento".


Manoel seguiu viagem; o plano fica. Isto do "Alemanha-Sul da Europa" são "onze contra onze". E ou mudamos de táctica ou, no fim, ganha o Putin. 

 

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