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Nicolau do Vale Pais 13 de Março de 2015 às 10:15

Maria de Lourdes Pintasilgo, mulher, portuguesa

Foi a 3.ª mulher a ocupar a chefia de um governo na Europa, e a primeira (e única) em Portugal.Os independentes não começaram agora - ao contrário do que julga a memória dos media.

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"Hoje, é a consciência difusa da complexidade dos fenómenos políticos e a ingovernabilidade vivida à escala planetária que, ao esbarrarem na impotência individual e colectiva, provocam o reaparecimento do sagrado. As interrogações que a complexidade levanta, e a angústia que provoca, levam à recusa da modernidade. É então o retorno ao sagrado de sociedades inteiras, e o aparecimento maciço de fenómenos religiosos (…) e do pietismo ritualista no plano individual."
Maria de Lourdes Pintasilgo, in "O Sagrado e a Política", 1989

 


O "antigamente" e a hipocrisia das suas "virtudes", a apologia do primarismo e analfabetismo em massa do Estado Novo e, em particular, a condição feminina antes de 1974 são tópicos que não deveríamos perder de vista, por uma questão de optimismo acerca do nosso futuro. E para não andarmos sempre a chafurdar no transitório, enfermos de imobilidade.


Portugal é hoje um dos dez países mais seguros para se nascer, quando a sua obscena taxa de mortalidade infantil, em 1960, só tinha paralelo noutros continentes, esses sim, amaldiçoados; morriam 80 em cada 1000 crianças, antes de conseguirem celebrar o primeiro aniversário; 8%, se preferirem. Hoje, esse número baixou para 3,3 em 1000, ou 0,3%, segundo "Portugal, os Números". Esta edição (da Fundação Francisco Manuel dos Santos) é da autoria de Maria João Valente Rosa e Paulo Chitas, e está sempre na minha cabeceira para poder acordar mais bem-disposto.


Além deste índice - em que cuja melhoria estamos à frente da Alemanha e cuja eloquência é considerada universalmente como um medidor de desenvolvimento transversal -, outros constam no livrinho. Um dos mais incríveis é o que nos diz da percentagem de mulheres com - ou sem - acesso ao ensino: no início da década de 60 do século passado, 72% das mulheres não tinham acesso à obtenção de qualquer grau de escolaridade. Mais de dois terços.


Nada muda à velocidade da superficialidade televisiva, a não ser o anúncio do detergente; no centro destas laboriosas transformações, esteve a resistência à ignomínia de milhares de anónimas, e o trabalho de cidadãs notáveis como Maria de Lourdes Pintasilgo. Foi a 3.ª mulher a ocupar a chefia de um governo na Europa, e a primeira (e única) em Portugal. Os independentes não começaram agora - ao contrário do que julga a memória dos media, que, por viver do furor é, necessariamente fugaz.


Pintasilgo foi candidata em 1986 à Presidência da República, numa eleição que haveria de se transformar num campo de batalha bipolar Esquerda-Direita, com a segunda volta entre Diogo Freitas do Amaral e Mário Soares. Foi também deputada europeia; o seu reconhecimento internacional, no entanto, antecedia já a sua presença no Parlamento Europeu. Entra no Conselho Directivo do World Policy Institute da New School of Social Research, em Nova Iorque em 1982 e, no ano seguinte, torna-se membro do Conselho de Interacção de Ex-Chefes de Governo, organismo criado por Kurt Waldheim, Leopold Senghor e Helmut Schmidt. Dedicou toda a sua vida aos assuntos da organização pública e à elevação da política como bem essencial à preservação das civilizações.


Esta minha (obrigatoriamente) superficial resenha não ambiciona fazer mais do que uma curta homenagem à figura pública de Maria de Lourdes Pintasilgo. Uma visita a www.arquivopintasilgo.pt, no entanto, não deixará de constituir uma incrível viagem a um acervo precioso. Da responsabilidade da Fundação "Cuidar o Futuro" - mais precisamente, do seu Centro de Documentação e Publicações - o "site" alberga parte substantiva do acervo documental de Maria de Lourdes Pintasilgo. Uma leitura atenta não deixará de deixar clara esta certeza: a defesa de causas não se compadece com a sua aparente impopularidade - a transformação nasce dessa coragem que Maria de Lourdes Pintasilgo encarnava, a coragem dos verdadeiros Estadistas. 

 

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