Nicolau do Vale Pais
Nicolau do Vale Pais 30 de agosto de 2013 às 10:59

"Não sabes como vais morrer"

Talvez esteja na hora de nos perguntarmos quais são, de facto, as características da nossa democracia, e da sociedade que ela representa, que nos distinguem do resto da Europa.

"When I sing about love and war//I don't really know what I'm saying//I've been in love and I've seen a lot of war//Seen a lot of people praying//They pray to Allah and they prey to the Lord//But mostly they pray about love and war"

Neil Young, 2010.

 

 

Talvez esteja na hora de nos perguntarmos quais são, de facto, as características da nossa democracia, e da sociedade que ela representa, que nos distinguem do resto da Europa. "Orgulhosamente", talvez possamos voltar a estar; "sós", isso é que já não. Nunca houve, aliás, senão na propaganda do Estado Novo, tal coisa como "a pátria autónoma"; essa ilusão foi mantida tempo demais, com custos geoestratégicos incomensuráveis. A prova disso está em que - apesar de toda a elevação exacerbada das virtudes "do povo" - o Estado Novo nunca tenha conseguido, ou sequer tentado, fazer sair a agricultura e as pescas da mera miséria subsistencialista em que ainda hoje se encontram.


Miséria que partilha - por quanto mais tempo, senhores?... - com o anedotário da política feita de advogados e chico-espertos, que têm ocupado as pastas do Ambiente e da Agricultura neste século. Os soldados foram chamados ao Ultramar durante treze anos, mas não há quem os chame para vigiar as matas; parece-me extraordinário que tenhamos estas contas por acertar, e depois estranhemos a dificuldade e desconfiança generalizadas em aceitar reformas e deixar o futuro chegar. Vamos falar da Guerra Colonial; ou melhor, deixemos falar quem lá esteve.


"Não sabes como vais morrer: 7+1 Histórias de Guerra" é um livro da autoria do jornalista Jaime Froufe Andrade, da colecção "Memória Perecível", uma edição da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Na sua quinta edição, este livro de bolso é um somatório de narrativas verídicas do ainda Alferes Miliciano (Rangers) Froufe Andrade, na sua passagem pela Guerra Colonial; mais precisamente, em Moçambique (1968/70). Culmina com o famoso incidente a bordo do "Vera Cruz", que quase fazia náufragos aqueles que tinham sobrevivido aos tiros e às bombas em terra firme e está, ao jeito de preâmbulo, adicionado da desconcertante narrativa de título "O Rádio Portátil". Os factos que a sustentam estão narrados num vídeo disponível no YouTube, que viralizou rápido (basta introduzir os "tags" "Guerra" "Colonial" "Rádio"), e foi sucedido por diversas peças de jornalismo em medias como o jornal "Sol", a TVI ou a BBC Radio London.


A visita a este "manual de histórias" sobre o negro período europeu e português que foi a Guerra Colonial não pode deixar de nos fazer pensar nos custos intangíveis e incomensuráveis do regime; o paralelo com o desemprego hoje é, se calhar, desaconselhado, mas inevitável. Até porque muitos dos ex-militares não voltaram a ser os mesmos; quanto mais trabalhar. Depois do seu regresso, estando hoje na prateleira da demagogia pública, são puxados por ambos os lados do espectro, sem que ninguém se concerte para a elementar e devida reparação.


"Não sabes como vais morrer", dizia a placa anónima, pendurada no mato, destinada a vergar pelo medo a mente dos soldados como Froufe Andrade. "Guerrilheiro" - digo eu: "Posso não saber como vou morrer; mas sei como quero viver: fora da ignomínia". Não à Guerra.

 

 

"Orgulhosamente", talvez possamos voltar a estar; "sós", isso é que já não.

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