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Nicolau do Vale Pais 07 de Dezembro de 2012 às 12:19

O insondável desígnio de Sá Carneiro

O país, que vive embrutecido entre partidos e média, passa a vida a discutir coisa nenhuma.

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"A Europa já não é miragem como era a Índia, já não é a panaceia que tudo vai resolver, é sim a oportunidade que se nos dá de, com o nosso próprio esforço e a nossa riqueza, acedermos a um nível de desenvolvimento e de dignidade que hoje não temos."

Francisco Sá Carneiro, "Textos", Vol. 7, Editorial progresso e social democracia, 1990.


O país, que vive embrutecido entre partidos e média, passa a vida a discutir coisa nenhuma. Ainda esta semana, o "Público" fez publicar uma vídeo-reportagem (*) sobre a indústria de conservas portuguesa, ou sobre o que dela resta. Portugal, que tem a maior zona marítima exclusiva da União Europeia, é também o país que mais peixe "per capita" consome. Por uma tragédia onde se devem incluir sem medo os "spinners" político-financeiros da (des)construção europeia, a pesca representa 1% do emprego gerado em Portugal; portanto, quando o publicamente inútil António Borges vem dizer que a nossa economia está "agora equilibrada", o que interessa realmente saber é que violentas mutações sofreu o PSD para hoje contar com estes ideólogos, que ora se auto-legitimam na suposta eficácia das suas ideias, como a seguir chamam gestão - e celebram! - meras e empíricas estratégias fiscais, desnorteadas, prejudiciais e incapazes.

A hipótese de um atentado à vida do primeiro-ministro (e/ou aos seus acompanhantes) jamais deveria permanecer na bruma. De si uma negra tragédia, este mistério horrível trouxe consequências em vários planos; depois do dia 4 de Dezembro de 1980, tudo passou a ser possível, tudo passou a ser imaginável. Este regime de superstição ainda hoje se faz sentir, numa desconfiança profunda que os portugueses nutrem pelo próprio sistema democrático, a começar pelos partidos. Infelizmente, a morte de Sá Carneiro não é o único caso em que o equívoco e a mistificação são demagogicamente usados para culpar o destino em vez dos homens que o deviam traçar. Quanto aos aproveitamentos e colagens à imagem liberal, culta e progressista do líder e fundador do PPD/PSD, elas estão bem à mostra na "reptilização" permanente em que vive o interior mais profundo e sinistro do partido.

A questão realmente pertinente e assustadora é: até que ponto a sociedade portuguesa tem, em si, poder para responder a estas questões. Estas e outras, como por exemplo a da descolonização, e por que é que ela não começou 20 anos antes. Ou quem foram realmente os financiadores interesseiros dos 13 anos de guerra colonial, travada por gente a quem ainda hoje não demos oficial e digno reconhecimento, enquanto em Lisboa, Salazar assegurava, pela repressão, pelo êxodo e miséria generalizados, a falta da ferramenta mais importante com que a cidadania pode contar para se defender - a memória.

É possível que haja várias formas de entender o momento presente, de o tentar explicar, compreender, tolerar, melhorar. Penso, pelo que pude ler, que parte do insondável desígnio de Sá Carneiro era esse, o de incluir na representação institucional, pelo voto, uma ideia de pluralidade como forma, ela própria, de progresso. Homenageá-lo passa por nos perguntarmos realmente quem são os Passos, os Borges e os Gaspares deste mundo - gente que não sabe nada de pessoas, de política, e para quem a finança é o mecanismo essencial para colocarem o Estado onde lhes convém e depois virem falar de povo e ideologias.

 

(*) http://www.publico.pt/multimedia/video/conservas-esta-industria-nao-e-para-fracos-20121202-214306, da autoria de Ana Rute SIlva e Ricardo Resende.

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