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Nicolau do Vale Pais 19 de Agosto de 2011 às 11:44

Qual é o plano?

A boa vontade é bonita, mas não é coisa a partir da qual se Governe.

A boa vontade é bonita, mas não é coisa a partir da qual se Governe. Entre o Estado Novo e o 25 de Abril, passámos de um sistema repressivo que deliberadamente afastava a "coisa pública" dos cidadãos, para o extremo oposto, em que qualquer cidadão pode achar que o seu assunto é coisa pública.

A ausência real de um projecto político e cívico que ultrapasse a elementar gestão de poder e crise, o servilismo primário das nossas lideranças ao poder económico-financeiro, a partidarização e consequente erosão do mérito na nossa sociedade e respectivas lideranças, trouxeram-nos um problema cuja dimensão está escondida por detrás do pano. É consensual que Portugal enfrenta défices vários, uns ligados à crise internacional - a conjuntura - outros, de índole estrutural - o "estado da nação". O que interessa agora saber é qual o plano político para o País; a confiança do eleitorado não se recupera trocando o ocultismo sinistro do Socratismo ao nível das nomeações ministeriais pelo exibicionismo inútil das "mesmas" nomeações que constituem este Governo. A transparência não é um recurso mediático, mas um pressuposto ético de quem sabe - ou devia saber - quais os perigos iminentes da descrença generalizada.

Durante os anos noventa, "acreditámos" no desenvolvimento pelo betão; não medimos as engenharias financeiras para alavancar tanta megalomania, nem contabilizámos sequer o prejuízo lato, por exemplo, em paisagem esventrada ou custos de mobilidade acelerados pela consagração do uso do automóvel (para citar dois exemplos). Perdemos fortunas em recursos naturais, e hoje olhamos para trás e sabemos que muita da impunidade nasceu da nossa complacência e deslumbre - os políticos que temos podem ser muita coisa, mas não são importados. Temo que dentro de 10 anos, olhemos para estes entusiasmos infantis que o mês de Agosto sublima, para a animação e para o Turismo, e possamos dizer rigorosamente o mesmo que dissemos sobre o bando de patos-bravos que financiou partidos e ganhou obras: efémero, inútil, escandalosamente caro, não-estruturante. E no entanto, não há câmara municipal que não dê hoje um arzinho da sua graça com mais uns foguetes e bombos, numa exibição de ignorância que é, primeiro que tudo, um desrespeito histórico pelo papel fundamental do Poder de proximidade na consolidação da nossa sociedade, em segundo lugar, um travesti da real defesa dos valores distintivos e identitários da riqueza local.

Há muito que, para a esmagadora maioria dos cidadãos portugueses, não há outro caminho senão o da poupança, para rebater a frase do Dr. Miguel Relvas, ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares; já tirámos as gravatas e desligámos os nossos ares condicionados muito antes da crise internacional e aprendemos a não fazer alarde disso. O que gostaríamos de saber, da parte do Governo, é se há coragem política para acabar com "offshores" e reduções de IVA para fortunas que não tem nada que ver com a nossa real Economia e comércios vários, dos campos de golfe aos bilhetes para o futebol e touradas, respectivamente.

A "silly season", essa auto-proclamada trégua entre "media" e política, morreu; já crescemos para acharmos que temos valor suficiente enquanto sociedade, para não termos de nos condenar nem à megalomania saloia, nem à sazonalidade. A água e luz, essas, já sabemos que vamos ter de pagar mais caro, supomos, em nome da tal poupança e da "ecologia à força"...

Mandar é fácil, Governar nem por isso: há plano para além das obediências?
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