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Nicolau do Vale Pais 22 de Maio de 2015 às 10:42

Qualquer violência é demais

O sentimento generalizado de insegurança é um caminho para o medo e para a irracionalidade. E a precariedade económica é um perigoso adubo para aumentar a colheita de tempestades.

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Gostamos de nos apelidar de "país de brandos costumes"; é uma máxima que usamos ora como forma depreciativa para definir a nossa falta de participação cívica, ora como panaceia para denegarmos a nossa secular insegurança. Nunca gostei da imprecisão da expressão; até porque se é certo que os nossos índices de criminalidade violenta não chegam ao pé dos países industrializados, a verdade é que a violência não se manifesta só em turbas ou altercações públicas.

No caso português, ela toma formas muito específicas, que vão desde os episódios de "bullying" de que tivemos notícia recentemente na Figueira da Foz, até à violência doméstica, causa de morte de 42 mulheres portuguesas em 2014. E há, claro, tudo o que fica por denunciar. É clichê, mas vale a pena repetir: o sentimento generalizado de insegurança é um caminho para o medo e para a irracionalidade. E a precariedade económica é um perigoso adubo para aumentar a colheita de tempestades.

Nestas coisas do espelho do futebol, eu concordo com László Bölöni, ex-treinador do Sporting (2001-2003). Em entrevista concedida ao Expresso, e que cito de memória, o romeno de origem húngara dizia, respondendo a algum sectarismo primário anti-futebol, que "se o país é o que é a nível cultural, então não é justo esperar melhor do futebol". E se é verdade que esta afirmação foi proferida num contexto de análise ao dirigismo luso, ela é perfeitamente recontextualizável à luz dos tenebrosos incidentes de Guimarães e do Marquês de Pombal, que estragaram a festa da esmagadora maioria de gente pacífica que neles quis participar.

Vejamos: este é um país que tolera tudo em nome de qualquer coisa - se a universidade pública, paga pelos contribuintes, tolera um sistema de iniciação violento como a praxe, se é esse o sentido de "formação para a comunidade" que se permite a quem não deixa, por ter acesso ao ensino superior, de ser privilegiado, o que esperamos, de facto? Um estado policial, capaz de, à bastonada, ensinar o respeito mútuo aos jovens licenciados?…

Sem querer fazer comparações descabidas, arrisco dizer que há na História recente um exemplo do que é a fenomenologia da violência como única forma de "participação pública" - chama-se "hooliganismo", e convém perceber que a sua explosão nos anos oitenta esteve, também ela, enquadrada num peculiar momento de contracção da importância da política, em nome do darwinismo social. Não pretendo aqui desenhar tese nenhuma, apenas dizer aquilo que não é novo: há uma mórbida intimidade entre condições de vida e violência social. Daí, aliás, a necessidade dos ópios, os vários ópios, da ficção televisiva reles, à hedionda interpretação tribal "da bola".

Para não nos perdermos nas elipses da demagogia, fixemos três coisas que é preciso salientar, todas elas evidentes:
- que aquele animal que espancou o pai em frente à criança não representa a Polícia;
- que os vândalos do Marquês não representam o futebol;
- que a festa - ao contrário do que entendeu a Câmara Municipal de Lisboa - pertencia ao Estádio da Luz e não ao espaço público (estádio esse pago, também, por dinheiro dos contribuintes).

Se o laxismo geral continuar, se o abuso do espaço colectivo - incluindo horas de conflitos absolutamente narcísicos e estéreis na televisão - pela via do mais primário populismo, é natural que o espaço que ocupamos se torne, necessariamente, mais caótico. Ao ponto de não haver sucesso de massas que o esconda. Caótico, se não mesmo, violento.

Há duas casas de partida neste tabuleiro; reflectir ou… reprimir. Com ou sem brandos costumes, fico-me pela primeira.

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