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Nicolau do Vale Pais 20 de Abril de 2012 às 12:40

Sem França, não há Europa. (sem Justiça, não há Democracia)

Domingo, o maior país da União Europeia (em área) vai a votos. Com 65 milhões de habitantes (números de 2010) e 43,2 milhões de eleitores

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"Já ouviram a história do tipo que caiu de um arranha-céus abaixo?...
À medida que passava por cada andar, dizia para os seus botões, para se tranquilizar:
"até aqui, tudo bem... até aqui, tudo bem..."
Não importa como cais, mas como aterras."
Mathieu Kassovitz, em "O Ódio", 1995.



Domingo, o maior país da União Europeia (em área) vai a votos. Com 65 milhões de habitantes (números de 2010) e 43,2 milhões de eleitores
- entre os quais meio milhão de luso-descendentes (números de 2011)
- as sondagens parecem indicar uma única certeza: a da realização de uma segunda volta, entre o candidato socialista François Hollande e Nicolas Sarkozy, presidente desde 2007 e recandidato da UMP. Ou talvez não.

Fazendo uma miscelânea empírica das principais consultas disponíveis, os números colocam os dois principais candidatos num empate virtual, com cerca de 27,5% das intenções de voto para cada um; seguem-se Marine Le Pen (da FN, Frente Nacional, de extrema-direita) com cerca de 15% das intenções, Jean-Luc Mélanchon (do PG, Parti de Gauche ou Partido da Esquerda) com 13% e, por fim, François Bayrou (do Mouvement Démocratique, ou Movimento Democrático), com cerca 10%. Há pouco mais de um ano, a extrema-direita de Marine era dada com tendo lugar garantido numa segunda volta, e não apenas na imprensa tablóide.

Marine Le Pen, xenófoba populista, reúne uma popularidade incrível junto dos jovens; a dinastia Le Pen continua a assombrar o farol da Democracia Europeia. A filha de Jean-Marie tem feito muito para limpar a imagem anti-semita do Partido (o pai, Jean-Marie Le Pen, um revisionista mitómano, considerou as câmaras de gás "um pormenor da II Guerra Mundial)"; equivale isto a dizer que trocou esse ódio por uma demagogia mais em linha com as angústias "contemporâneas" - Marine quer a pena de morte na Justiça ou o fim dos "eurocratas de Bruxelas", onde é deputada (remunerada, claro) desde 2004. Na Economia, quer implodir os dogmas do comércio livre e da globalização, um fantasma proteccionista que vai agitando ao sabor do fracasso e erosão de uma França industrial que Sarkozy não consegue fazer reerguer. Quando, e se um desastre destes suceder, teremos a certeza demonstrada de que a demagogia fascista e violenta que Marine Le Pen representa, tem o seu "vibratto" triunfante obscuro nos fracassos de tecnocratas como, precisamente, Nicolas Sarkozy ou Angela Merkel. Veremos até que ponto consegue uma Democracia reduzida ao controlo panfletário de opinião, em vez do debate de ideias e diagnósticos sérios, resistir ao colapso.

Tudo é possível nesta Europa de travestis político-financeiros, do capitalismo popular a qualquer custo. Num tribunal de Munique, dois representantes alemães da Ferrostall (empresa que vendeu submarinos a Portugal e Grécia), admitiram o pagamento de 62 milhões de euros em subornos. Desta quantia, um terço - lembram sob juramento - chegou às "autoridades" dos dois países, tendo o resto sido "distribuído por uma teia de intermediários". Na Grécia, o ex-ministro da Defesa está preso por receber luvas no valor de 3 mil milhões de euros. Os alemães foram corruptores activos, como salientava Paulo Gaião no "Expresso" online da passada quarta-feira. Em Portugal, o processo que envolve Paulo Portas - ministro que tutelou o negócio de mil milhões de euros de compra de duas unidades à Ferostaal - está em instrução há seis anos sem que nenhum governante tenha sido ouvido no âmbito do mesmo.

Sobre estas tramóias, a extrema-direita "europeia" não pia, porque não lhes convém, aos comerciantes do "patriotismo", reconhecer que o seu modelo é um aproveitamento parasitário das fraquezas alheias, muitas vezes criadas pela sua própria vertiginosa incompetência enquanto responsáveis públicos. Como criancinhas mimadas, sacodem a culpa para outro lado, impotentes marionetas do perigosíssimo negócio em que a Política se tornou, e do qual é urgente resgatar a nossa dignidade e brio.

Domingo veremos se das cinzas do pilar da Europa plural - que De Gaulle libertou um dia dos homicidas do III Reich - se resgata alguma genica inesperada que chegue para dizer "oui à la politique"; ou se, por outra, continuaremos em queda acelerada, com os dias contados, a achar que "até aqui, tudo vai bem". Sem França, não há Europa; sem Justiça, não há Democracia.



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