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Nicolau do Vale Pais 16 de Julho de 2010 às 12:50

We, the People (*)

"Pew Research Center" - um "fact tank" cujo trabalho de recolha e tratamento estatístico de dados sobre as matérias, as atitudes e as tendências que moldam a América e a sua relação com o mundo, é conduzido através de sondagens por entrevista directa e acompanhamento estatístico dos media - deu conta, em Junho passado, da actualização da componente dos números do seu "Pew Global Attitudes Project", que mede a evolução específica da popularidade da América e do seu Presidente no globo.

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Conduzido em 22 países diferentes (um subconjunto da base de dados de 57 nações que o "Pew Research Center" utiliza nos seus diversos estudos de aferição global), este projecto traz alguns números que não deixam de ser surpreendentes. Por exemplo, esta é a primeira vez em que há registo de uma maioria favorável na taxa de aprovação dos Estados Unidos nas outras cinco nações de massa demográfica e peso geoestratégico significativos - Brasil, China, Indonésia, Índia e Rússia. Este grupo nevrálgico apresenta algumas curiosidades que seria frívolo ignorar - trata-se da oitava economia do mundo e a maior da América Latina (e a crescer), acompanhada do mais populoso país do mundo (uma República Popular onde popular, popular, é o capitalismo); estão também a mais populosa nação muçulmana do mundo, a mais populosa democracia do mundo e o pelotão "fecha" com a maior nação resultante da desagregação do adversário da muito recente Guerra Fria, a extinta União Soviética.


Sucede que, um pouco como nós - a mais ocidental nação da Europa - nos teremos habituado a tolerar, também os americanos se confrontam com um problema paradoxal: os "de fora" estão mais crentes e revelam-se mais entusiastas do que "os de dentro". E mais: 60% da população americana ainda acha que o seu país é mal-amado pela generalidade dos que fora dele vivem, embora todos os números apontem rigorosamente na direcção contrária.


Romesh Ratnesar, um dos editores da revista Time, extrapolava (num artigo de há semanas em que fazia a análise de toda a miríade de números do projecto) que, perante tal evidente descrença, "se a América fosse eleita 'chefe de turma', os americanos pediriam uma recontagem dos votos". Esta ironia, e o humor que encerra, parece ser um daqueles gestos de escrita que sintetizam o espírito independente e auto-regenerador da sociedade americana, que espero a minha tradução livre não tenha deturpado. O facto é que a mensurável qualidade daquele artigo (mais importante do que a opinião favorável que possa ou não motivar) está directamente ligada à qualidade da informação de onde parte para a análise. Uma consulta rápida à própria forma como os dados são recolhidos, tratados e apresentados pela já mencionada instituição é de si, inspiradora, até (ou sobretudo), para amadores como eu: não há Lei de Gersham e é a "boa moeda" que expulsa a "má moeda" e rejeita, na proporção inversa da extrapolação política que motiva, qualquer partidarização ou entusiasmo publicitário; não há portanto, problemas de share para resolver ou qualquer candidato a eleger ou derrubar.


Paul Newman, lenda planetária do cinema americano desaparecida cerca de dois meses antes das eleições de 2008, fez ouvir as suas últimas palavras pela voz da sua filha, para "pedir aos Americanos que fossem votar", num gesto cívico final de alguém habituado ao pouco democrático escrutínio do show e do business.



Seria bom que, ainda antes de mais um teste à nossa capacidade de tolerar mais uma opípara campanha eleitoral - uma inevitável consequência da forma como o sistema político-partidário europeu se encontra organizado - a qualidade da comunicação no espaço cívico, político e mediático fosse trazida ao debate por quem governa ou aspira a governar, por quem é Chefe de Estado ou a isso se candidata e, sobretudo, por quem elege, isto é, "we, the people".



(*) "We, the people": as primeiras 3 palavras da Constituição dos Estados Unidos da América.


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