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Nicolau do Vale Pais 17 de Abril de 2014 às 10:25

Zapping e Democracia: António Costa, o Presidente "Melhoral"

Em princípio, uma cidade europeia e civilizada não tem problemas de recolha de lixo. Ponto final.

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Em princípio, uma cidade europeia e civilizada não tem problemas de recolha de lixo. Ponto final. António Costa justificava-se em círculos, enquanto o lixo se amontoava em pilhas pela cidade em Janeiro passado - pouco interessa se foi o Sindicato, o Partido, a chefia-média ou o próprio cantoneiro, interessa é que a culpa vá morrer longe e solteira; é esse o estilo que Costa cultiva com a sua bonomia estratégica. Visitei Lisboa nessa altura e, enquanto pagava a preço de ouro um rectângulo de espaço público para pôr o carro, taxado a preços milionários e insultuosos por uma opaca EMEL, decidi que haveria de escrever este artigo.


O fenómeno Costa é paradigmático dos dias de hoje, em que a simpatia, a fotogenia e o talento comunicacionais - tudo qualidades que não interessam pevas para a resolução prática dos problemas públicos - ganham terreno, galopantes, sobre a determinação, a objectividade e a auto-exigência que deviam marcar, de forma inequívoca, o sentido de responsabilidade de um democrata. Permitam-me contar-vos duas histórias absolutamente públicas que - porquê, não sei - não mereceram nem telejornal nem Quadratura do Círculo:


- Há pouco menos de dois anos, já Passos Coelho tinha feito as famílias portuguesas perderem milhões de euros de benefícios fiscais, o Rock in Rio terminava a sua passeata a Lisboa. Enquanto um António Costa vociferava na televisão contra o atentado à classe média perpetrado pelo perigosíssimo primeiro-ministro, o outro concedia ao evento luso-brasileiro qualquer coisa como três milhões de euros de benefícios e isenções, em nome do interesse público. Não sabemos se esse interesse público é o mesmo que leva à pouca-vergonha oportunista da contratação de voluntários (escravos?) para mão-de-obra por parte da organização do festival, e desconhecemos o sentido de indignação do socialista António Costa para com tal estado de coisas. É para não incomodar a nação?…


- Em Dezembro passado, cerca de três meses depois das eleições autárquicas, surgem nos média notícias sobre balbúrdias inefáveis nas Juntas da Capital. No Beato não há petróleo, mas há dinastias: parece que o presidente da Junta decidiu contratar a filha do presidente da Junta vizinha - a de Marvila - para quadro permanente. Logo a seguir, e no melhor estilo "deixa que já te pago", a Junta de Marvila contratou uma outra jovem que - ah, Santo António, casamenteiro! - viria precisamente a casar com o presidente da Junta do Beato. Um António Costa protesta contra os Relvas deste mundo ao vivo e a cores; o outro vê o pior aparelhismo passar-lhe por entre os dedos e faz de conta que não vê. É para não incomodar o Partido?…


Eu não noto nada de diferenciador em Lisboa que atribua à administração camarária; noto, isso sim, um volume de acontecimentos típico da(s) capitais(s), e um aproveitamento mediático desavergonhado, que tenta fabricar méritos supostamente estratégicos, que não passam de benesses de conjuntura, como o crescimento do tráfego aéreo internacional, por exemplo. O caso recente da remoção da calçada portuguesa é o exemplo acabado da chico-espertice: a Câmara prepara-se para justificar o atentado ao património com base… no cuidado de manutenção que não tem com o mesmo! Mas, nos artigos e intervenções de opinião, António Costa é um Santo Popular e ai de um qualquer Carrilho, Menezes ou Elisa que se atrevessem a metade de tudo isto sem serem, desde logo, denunciados à pátria como génese dos seus males crónicos.


Tudo isto se passa numa comunicação social que insiste em confundir o seu perímetro restrito e palaciano, com a noção alargada de país que todos nós gostamos de fomentar; Costa - explique quem puder - pode ser populista à vontade (como fez ao incluir o valor dos terrenos do Aeroporto na apresentação de contas do ano transacto), que não há virgem que se ofenda, mesmo sabendo nós que a autarquia de Lisboa tem uma dívida colossal, um elefante na sala - per capita, essa dívida é metade da de Gaia - ou que aquela estrutura de administração apresenta números recorde, em termos nacionais e europeus, no que toca a funcionários por mil habitantes: Lisboa tem 17; o Porto tem 10,8; Gaia tem 5,8, quase três vezes menos. Mas, nas redacções, Costa segue como ficção nacionalizável.


Para o PS - ou para a parte dele à qual suam mais as palmas das mãos do que a testa - tudo seguirá o seu curso; Costa é popularíssimo e isso é que conta para os indispensáveis democratas do aparelho. É sobre esta terra queimada de equívocos e demagogia "soft-pop" que se legitimam o pior da Direita e o seu discurso néscio, precisamente. A democracia faz-se de remédios e não de placebos: António Costa é um pouco como o antigo comprimido "Melhoral" - não faz bem, mas não faz mal. Já Seguro, como todos sabemos, é "um perigo", mesmo tendo falado em novas abordagens ao problema da dívida dois anos antes de qualquer manifesto, ou de bagatelas como querer discutir se os médicos vão - ou não - continuar a trabalhar por conta própria e para o Serviço Nacional de Saúde, e em que modos é que se deve discutir a sustentabilidade do mesmo, que é como quem diz, da própria democracia conforme a conhecemos.


Toca a aviar, rapaziada; mais uns anos e a malta já nem vota - faz só mais um zapping.

 

 

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