Pedro Braz Teixeira
Pedro Braz Teixeira 15 de setembro de 2014 às 00:01

BCE vs. Merkel

A sucessiva deterioração das perspectivas para o PIB e preços fizeram - finalmente - Draghi anunciar medidas não convencionais e, para além disso e até mais importante, a defender estímulos orçamentais, para além do gastíssimo pedido de reformas estruturais.

Como é evidente, é a Alemanha que está na posição económica ideal para gerar despesa adicional, quer pela sua situação de contas públicas (saldo estrutural positivo e dívida pública em clara queda), quer pela sua dimensão.

 

Tal como o presidente do BCE referiu, o presidente Juncker está a planear lançar um pacote de investimento público e privado, no montante de 300 mil milhões de euros, o que representa cerca de 3% do PIB da Zona do Euro. Parece que a Alemanha e a França estão a pensar que este estímulo seja suficiente para responder aos pedidos de Draghi, o que não é o caso, já que o líder do BCE já tinha implícita esta medida.

 

Uma investigação recente da revista "Der Spiegel" revelou que Angela Merkel encomendou 600 estudos de opinião secretos, entre 2009 e 2013. Aquela revista alemã comparou decisões-chave com os resultados destes estudos, entretanto, tornados públicos por pressão dos Verdes, e concluiu que, não sendo escrava da opinião revelada, usa esta informação para nunca se afastar muito da posição dominante do eleitorado. Ou seja, muita da teimosia e dureza de Merkel não será verdadeiramente dela, mas do próprio eleitorado alemão. 

 

Dito isto, é evidente que Merkel poderia esforçar-se por mudar a opinião dos alemães, como Kohl, o seu mentor, se empenhou em vender a ideia do euro perante um eleitorado que detestava tal coisa. A actual chanceler alemã também poderia tentar convencer os alemães de que, para afastar o risco de uma muito perigosa deflação, faria sentido um programa de investimento público de elevada qualidade. Ou uma generosa subida dos salários alemães. Para já, isto não parece provável.

 

Veremos como os outros líderes europeus aproveitarão a pressão do BCE para algum estímulo orçamental e como Merkel resistirá a isso. Hollande poderia ser o campeão do outro lado, mas tem tido uma liderança muito fraca.

 

A chanceler alemã poderá escolher arrastar os pés, até porque a actuação do BCE tem tido um impacto significativo de depreciação do euro, que pode ajudar quer o crescimento económico, quer ajudar a afastar o risco de deflação. A própria melhoria esperada dos EUA, levando à valorização do dólar, pode acentuar esta mesma depreciação, ajudando de forma apreciável a economia da Zona do Euro.

 

Nota: as opiniões expressas no texto são da exclusiva responsabilidade do autor

 

Investigador do Nova Finance Center, Nova School of Business and Economics

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