Pedro Braz Teixeira
Pedro Braz Teixeira 23 de janeiro de 2013 às 23:30

"Que a fortuna não deixa durar muito"

Este retomar do financiamento por via normal terá, no entanto, a desagradável consequência de aumentar os custos de financiamento, porque, apesar de tudo, apenas conseguimos recuperar a confiança dos investidores se os compensarmos com taxas de juro claramente superiores às que pagamos à "troika".

Nos últimos meses, Portugal tem estado "naquele engano da alma, ledo e cego, / que a fortuna não deixa durar muito". Qual "linda Inês", o país tem estado posto "em sossego", trazido pela descida das taxas de juro de longo prazo, provocada pelas promessas de acção do BCE. 


Ontem terá ocorrido o regresso aos mercados, mas com várias muletas. Este retomar do financiamento por via normal terá, no entanto, a desagradável consequência de aumentar os custos de financiamento, porque, apesar de tudo, apenas conseguimos recuperar a confiança dos investidores se os compensarmos com taxas de juro claramente superiores às que pagamos à "troika".

Também é verdade que vai facilitar o acesso dos bancos portugueses aos mercados e, por essa via, o financiamento das empresas lusitanas. Poderá aliviar ligeiramente a severidade da recessão esperada.

No entanto, temos de relembrar que os problemas estruturais do euro permanecem intactos, em particular a inexistência de um orçamento comum. Sublinhe-se que a existência dum orçamento desse tipo é uma condição essencial ao sucesso de uma área monetária óptima.

Mas não é tanto a Portugal que a "fortuna" não permite estar "em sossego" durante muito tempo. É sobretudo a Grécia que corre o risco de voltar a estar na berlinda, embora possamos ter um compasso de espera até lá.

Os parceiros europeus terão acordado dar a este país seis meses de tranquilidade, durante os quais não farão novas exigências. Vai uma apostinha que esta moratória vai paralisar as reformas e os cortes orçamentais?

Será que os parceiros europeus vão mesmo conseguir cumprir a promessa de dar seis meses a este Estado, ao verificarem quais as consequências da sua "oferta"? Tenho sérias dúvidas.

O FMI também divulgou um relatório sobre a Grécia, que terá recebido pouca atenção em Portugal, em que afirma que se mantém um risco elevado de não cumprimento das metas do programa de ajuda revisto.

Se a recuperação económica se atrasar um ano, o que está longe de ser improvável, os países europeus seriam obrigados a perdoar um quarto das dívidas gregas. Como já se tem repetido, um perdão deste tipo, violando as mais solenes promessas políticas de que a Europa apenas está a fazer empréstimos e não transferências para os países resgatados, tem todas as condições para ser uma "mudança de jogo". Qual será o novo jogo? Há muitas possibilidades em cima da mesa, incluindo algum tipo de desagregação da união monetária.

Nota: As opiniões expressas no texto são da exclusiva responsabilidade do autor.

Director Executivo do Nova Finance Center, Nova School of Business and Economics
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