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Pedro Braz Teixeira pbteixeira3@gmail.com 18 de Fevereiro de 2009 às 13:47

Ser e parecer

Na nossa tentativa de eliminar o atraso económico há um equívoco que explicará parte do nosso continuado insucesso, quiçá desde há séculos (no sentido literal).

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Na nossa tentativa de eliminar o atraso económico há um equívoco que explicará parte do nosso continuado insucesso, quiçá desde há séculos (no sentido literal). É o equívoco entre o ser e o parecer. Demasiadas vezes temos importado a aparência da modernidade em vez da sua essência. Não admira que estas "modernizações" não funcionem.

Vejamos três exemplos. Os fundos de investimento surgiram como forma de tornar mais eficiente o investimento nos mercados financeiros, permitindo uma redução nos custos de transacção pelas economias de escala, uma diversificação de risco mais completa e uma gestão mais profissional. Fundos com estas características ajudam o desenvolvimento do País.

Infelizmente, a importação deste conceito para Portugal fez-se de forma deficiente, confundindo o "ser" com o "parecer". Julgou-se que "moderno" era ter os fundos de investimento, sem se perceber que a verdadeira vantagem não estava nos fundos em si, mas em fundos que servissem as funções para que eles foram criadas, expostas acima. Assim criaram-se isenções e benefícios fiscais, que criaram muitas ineficiências no sector. Este caso é daqueles em que é mais válida a máxima (cuidado com as generalizações...) que: se um sector precisa de benefícios para sobreviver não merece sobreviver; e se merece receber subsídios, não precisa de os receber. Soube-se recentemente que benefícios (erradamente) criados para os pequenos investidores estão hoje a beneficiar os grandes investidores a investir no exterior! Palavras para quê?

Outro exemplo é o da linha do Tua, onde decorre uma discussão completamente irracional. Em vez de se ter como objectivo uma forma de transporte o mais eficiente possível, parece que o governo se fixou maniacamente numa "solução" ferroviária. Mesmo que isso coloque em causa o projecto económico da barragem prevista para o local. Neste caso nem sequer se percebe a "modernidade" da solução ferroviária. O governo "quer" que a EDP construa uma solução ferroviária dê lá por onde der. Uma alternativa rodoviária? "Nem pensar" responde a secretária de Estado, perigosamente próximo de "é proibido pensar" e um "argumento" que é irmão gémeo do inesquecível "jamé".

Vamos ao terceiro exemplo. O TGV entre Paris e Lyons faz todo o sentido, porque reduz drasticamente os custos de transporte entre as duas maiores cidades francesas, ajudando ao desenvolvimento de França. Mais uma vez, a essência não é ser um meio de transporte inovador. O fundamental é a redução de custos e de congestionamento que esta solução permite.

Em Portugal, pretende-se adoptar o TGV porque "parece" moderno, mas não porque o "seja" objectivamente para as nossas condições concretas. Tudo indica que o verdadeiro custo de cada viagem (não confundir com o preço, que será uma ficção, decidida politicamente) por TGV acabe por ser superior ao actual custo das viagens de avião. Tudo indica que o impacto ambiental do TGV seja também desastroso, dado o baixo volume de tráfego previsto. Qual é a lógica de investir um "balúrdio" num projecto com uma tecnologia mais demorada do que a que temos hoje e que vai sair mais cara? A lógica é "parecer" moderno e não "ser" moderno. A agravar, o TGV já era uma má ideia mas, com a actual crise de crédito, tornou-se uma loucura.

Isto remete-nos inevitavelmente para os nobres arruinados das peças de Gil Vicente. Exibiam-se nas ruas com as roupas mais faustosas, embora passassem fome dentro de casa. Parece assim que vamos exibir o TGV e passar fome durante décadas. Passaram 500 anos e parece que há quem não tenha aprendido nada.


Economista
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