Pedro Fontes Falcão
Pedro Fontes Falcão 23 de outubro de 2019 às 18:53

Todos vão ganhar a guerra?

Presumo que a China deverá começar a direcionar mais o seu comércio para outros países, aceitando que, pelo menos durante algum tempo, as tarifas comerciais impostas pelos EUA não deverão descer.

As negociações comerciais entre a China e os EUA decorreram de tal forma que se chegou a uma "guerra" comercial. Relembro que a principal origem deste conflito foi a afirmação de Donald Trump, na sua campanha presidencial de 2016, de que a eliminação do deficit comercial dos EUA com a China seria uma prioridade, caso fosse eleito.

 

Após a sua eleição, sabendo-se que Trump é um "homem de negócios" e que está habituado a negociar, a generalidade das pessoas e, presumo que também o governo chinês, achava que Trump era alguém com quem os chineses poderiam negociar e chegar a um acordo, idealmente benéfico para as duas partes.

 

Contudo, desde a sua eleição que nos apercebemos de que esta perceção acabou por não estar sempre correta. Na realidade, Trump acabou por ser muito influenciado por "falcões" do protecionismo comercial e não tem sido o negociador que se esperava.

 

A estratégia negocial americana passou primeiro por decidir que, em vez de "atacar o mundo inteiro" de uma só vez, iria pressionar países de forma bilateral para obter concessões, tendo mais sucesso onde o peso dos EUA é decisivo, nomeadamente com a Coreia do Sul, e com o Canadá e o México. No caso da UE, tem havido uma forte união entre os seus membros, o que não permitiu que os EUA alcançassem grandes resultados.

 

Por outro lado, em relação à China, Trump tem sido muito influenciado pelo responsável pela pasta do Comércio, Robert Lighthizer. Trump vai aumentando tarifas como ferramenta de pressão negocial, e quando a China quer negociar e apresenta propostas que poderiam ser um embrião de um hipotético acordo, Lighthizer vai sugerindo que a concessão é "muito pouco, muito tarde", o que vai afastando a possibilidade de um acordo final e global ou, eventualmente na perspetiva de Trump, levando a China a ceder mais.

 

Na prática, os EUA tentam compensar as perdas comerciais com a China com ganhos nas negociações comerciais com outros países, Trump quer manter a sua imagem de "durão" e arranjar um "suposto" culpado para um eventual menor crescimento económico dos EUA, tentando assim ganhar as eleições que decorrerão daqui a um ano.

 

Por outro lado, presumo que a China deverá começar a direcionar mais o seu comércio para outros países, aceitando que, pelo menos durante algum tempo, as tarifas comerciais impostas pelos EUA não deverão descer. Deste modo, a China irá minimizar as perdas comerciais com os EUA e eventualmente surgirá uma nova realidade de fluxos comerciais (e eventuais mudanças de poderes e influências geopolíticas no mundo), onde a China continuará a ser um "player" fundamental menos dependente dos EUA.

 

Gestor e docente universitário 

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