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Pedro Santana Lopes - Advogado 23 de Março de 2017 às 00:01

A vacina Trump

Como se sabe, tem sido grande o receio quanto ao resultado das várias eleições que este ano têm lugar em países da União Europeia. É natural esse receio, quanto mais não seja, pelo que se passou com o Brexit.

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Mas o Reino Unido é de facto um caso à parte. Agora está para sair, mas pode ser que um dia volte. As primeiras dessas eleições foram no passado domingo na Holanda e, bem vistas as coisas, funcionou aquilo a que nalguns debates em que vou participando, nomeadamente na televisão e na rádio, tenho admitido que possam ser os efeitos da "vacina" Trump. Apesar de tudo, a Europa Ocidental, nas suas diferentes componentes, religiões, ideologias, tradições e organizações, tem como princípios e valores dominantemente inspiradores os que constam das declarações dos Direitos do Homem, quer da Revolução Francesa, quer das Nações Unidas. Ora, uma coisa é a adesão circunstancial aos extremismos quando eles são uma ameaça não concretizada. Outra é um continente de populações com uma história de muitos desvarios e barbáries ver concretizar-se a eleição de uma personagem como Donald Trump. Com tudo o que tem dito, com tudo o que tem feito e com tudo o que dele se vai admitindo, Donald Trump pode de facto constituir essa alerta, esse toque a rebate para os europeus que, apesar de tudo, vivem numa sociedade democrática, tolerante e aberta, melhor do que qualquer loucura individual que ponha em causa o coletivo, a paz e a segurança de todos e de cada um dos cidadãos.

 

Lendo bem os números das eleições holandesas, chega-se facilmente à conclusão de que o partido de extrema-direita, chamado Partido da Liberdade, teve pouco mais do que 10 por cento e que os partidos pró-europeus, defensores do Estado de Direito e da democracia, tiveram bem mais do que três quartos dos votos e isto nas eleições mais participadas de há 30 anos, com uma taxa de votantes superior a 80 por cento. Teremos agora França, com as duas voltas das eleições presidenciais, e depois a Alemanha. Tudo parece indicar, pelos estudos de opinião que vão sendo feitos e mesmo descontando os habituais erros, que as forças democráticas vencerão com uma distância considerável. No entanto, em França, por razões várias, o partido da extrema-direita, a Frente Nacional, ultrapassa já um terço do eleitorado. Mas é bom notar que estamos a falar de eleições presidenciais, porque em legislativas, seguramente, não atingiriam esse patamar na preferência dos eleitores. Na Alemanha, apesar de tudo, entre a CSU/CDU e o SPD estarão cerca de dois terços dos eleitores e temos depois ainda os Verdes e os Liberais, sendo que o Alternativa para a Alemanha (AfD) não deverá obter também o resultado que se chegou a temer. Ou seja, nestes vários países pode-se constatar que a eleição de Donald Trump não está a ter o feito de contágio que se chegou também a admitir. E pode também, nesses casos, pelo contrário, funcionar a "vacina" que ele representa. Vamos aliás ver também em que medida o próprio Brexit, com todos os seus avanços e recuos, não produzirá igualmente uma vacina em relação aos movimentos centrífugos face à União Europeia que têm acontecido em vários Estados-membros. Como é óbvio, é cedo ainda para se saber quais as consequências para os cidadãos do Reino Unido de todo este processo negocial que se vai iniciar nas próximas semanas. Mas a saída de empresas, de todo ou em parte, alguma fuga de investimento e outras sequelas que só adiante se verão, poderão também contribuir para que os cidadãos dos outros vinte e sete pensem que, bem vistas as coisas, é melhor ficar onde estão.

 

Advogado

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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