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Pedro Santana Lopes 28 de Maio de 2014 às 21:05

À espera do futuro

Figueira da Foz, quarta-feira, hora de almoço. Ruas com alguns carros e com poucas pessoas. Restaurantes sobre a praia quase vazios. Poucos ou nenhuns sinais de turistas.

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Numa terra onde, há anos, o imobiliário fervilhava com o preço do metro quadrado a bater recordes regionais ou nacionais, não há milionários chineses, brasileiros ou angolanos a comprarem os imóveis mais caros.

Entram duas turistas para almoçar e olham à volta, espantadas por não estar quase ninguém mais. A dona do restaurante conta que vai voltar a vender peixe no mercado. Duas bancas foram à praça por 400 euros quando há 15 anos eram disputadas por valores à volta de centenas de contos (milhares de euros). Muitas Famílias deixaram de poder pagar as prestações das suas casas, entretanto, penhoradas pelas Finanças ou pela banca. Vão para as freguesias rurais procurar uma nova habitação que seja comportável pela nova realidade dos rendimentos familiares.

Vários voltaram à faina piscatória ou partiram para outros mares, por exemplo, no Norte da Europa, em plataformas de exploração petrolífera. Pessoas que viviam abastadas com o comércio aceitaram lavar pratos no Centro da Europa.

A indústria exportadora, muito presente no concelho, vive a luta da competitividade. Mas, neste mesmo dia, houve a primeira greve de décadas de laboração de uma grande empresa papeleira que tem a sua fábrica no concelho.

As pessoas estão tristonhas. É um dia marcado pela partida de um Homem muito bom, António Azenha Gomes, mais de uma década presidente da Associação das Coletividades do concelho. Essas entidades são dos poucos motivos de entretenimento e fatores de formação de populações cada vez mais preocupadas com o seu futuro.

Estas terras, estâncias balneares, sempre esperaram pelo verão. Agora, desesperam. Aqui os cruzeiros não acostam, passam ao largo. Mas, mesmo assim, a Figueira enche no verão durante um mês e meio. Nisso, pelo menos, continuam a acreditar.

2. Mas não se pense que é só nas estâncias balneares que se espera que, depois deste presente, venha um futuro mais risonho.

Na semana passada, quarta-feira também, na rua principal da Azambuja, por volta das 20h00, quando saí do carro e antes de entrar no restaurante, olhei à minha volta. A rua é comprida e tinha já os preparativos da famosa Feira de Maio. Não se via ninguém. Entrámos no restaurante e éramos os únicos. E assim foi até sairmos. Fomos conversando com a proprietária. Tem quatro filhos e todos têm de ajudar. Uma das suas filhas servia à mesa. Teve de parar os estudos e interromper o curso de Gestão porque a Mãe não tem dinheiro para pagar a um empregado. Uma Residencial, ali perto, antes sempre de lotação esgotada com quem vinha às empresas de automóveis e aos centros logísticos de grandes distribuidoras, hoje quase só recebe peregrinos. Mas se algumas dessas empresas continuam lá, o que aconteceu a esses visitantes de décadas? As empresas improvisam soluções para quem vem de fora pernoitar nalgum canto menos agreste. Ah, e cortaram muito nas deslocações e nas ajudas de custo.

Esta terra desespera agora pela Feira de Maio que traz milhares de visitantes para as Festas e para verem as largadas de toiros. Nesses dias, quase todos esquecem a crise.

3. Quantas terras, por esse Portugal fora, já não esperam nem desesperam. Não têm mar nem lezíria, nem pescadores nem campinos.

Entretanto, ouvem debates e fogem de votar. Não acreditam que o futuro seja melhor do que o presente. E os anos vão passando e as rugas vão-se cavando.

Retoma? Talvez... Ouviram dizer que há muitos turistas em Lisboa e no Porto. E chineses, angolanos, brasileiros, franceses e indianos. Por lá, não apareceu ninguém. Menos médicos, menos repartições, menos escolas, menos tribunais, menos correios, menos comboios...

Ouve-se dizer: "Eu votei Marinho Pinto, mas o resto da família nem foi lá". Entretanto, as bolsas sobem, os juros descem e Costa desafia Seguro.

Ah!, e vem aí o Mundial.

Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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