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Pedro Santana Lopes - Advogado 09 de Junho de 2016 às 00:01

A perversão nas bolsas

Realidade cada vez mais difícil de compreender é a da possibilidade de os investidores em mercados de capitais poderem apostar na queda das ações.

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Não vou utilizar aqui nomes técnicos, vou tão só referir-me ao termo mais simples que designe algo que cada vez mais considero perverso. Os mercados de capitais não nasceram obviamente para prejudicar as economias. Na lógica do pensamento liberal e das correntes defensoras das sociedades capitalistas, as bolsas de valores são, supostamente, para contribuir para o fortalecimento das empresas e, em certa medida, para alguma compensação de quem opta por esse tipo de investimento financeiro. Aquilo que não está de certeza na génese nos mercados de capitais é o contributo para a depreciação das empresas, para a sua perda de valor e, portanto, para o enfraquecimento da economia.

 

Quando as empresas caem a pique ou também quando se valorizam em excesso, as entidades reguladoras que superintendem os mercados de capitais podem, naturalmente, intervir. Tem acontecido nas últimas semanas, nomeadamente com os títulos de um banco nacional, esse tipo de intervenção, por exemplo, pela proibição das chamadas vendas a descoberto. Não vou aqui discutir os complexos conceitos de short-selling e mesmo esse da venda a descoberto. O que não faz sentido é vermos, como ainda vimos nestas semanas mais recentes, que, por exemplo, algumas empresas podem ter também perdido muito valor, porque alguns fundos regressaram e resolveram apostar na depreciação do valor de algumas cotadas, depois de nas semanas anteriores se terem verificado subidas significativas. Ora, que sentido é que isto faz? Repito aquilo que vou afirmando, em género já quase de piloto automático: pelo menos desde a crise do subprime, em 2008, o mundo precisa urgentemente de uma revisão dos mecanismos de regulação do sistema financeiro no seu todo e, neste caso, dos mercados de capitais.

 

Obviamente que as bolsas de valor são isso mesmo: os títulos que representam as várias empresas cotadas podem subir ou descer e as pessoas podem perder ou ganhar nos investimentos que fazem. Não faz sentido é ganhar-se com a queda porque isso é apostar contra aquilo que muita gente trabalha todos os dias, é destruir valor que outros arduamente tentam criar.

 

É sabido que há muitas teorias para tudo e algumas sustentam esta possibilidade como lógica e racional e até produtora de efeitos benéficos por poder valorizar e robustecer determinados operadores financeiros. Mas, com franqueza, o mundo já teve de tudo na sua História, até aqueles que acerrimamente defendiam que era o Sol que girava à volta da Terra. Não é só a bolsa de valores portuguesa que ilustra a necessidade desse trabalho profundo de alteração de regras. A irracionalidade mais absoluta campeia em torno dos mais variados argumentos, supostamente explicadores de movimentos de sinal contrário dos títulos cotados. O mesmo argumento é usado, muitas vezes, para explicar a queda e a subida das bolsas, sendo um dos bons exemplos a mexida nas taxas de juro por parte da FED - Reserva Federal dos Estados Unidos.

 

Está na hora de não se perder mais tempo, consentindo a vigência de mecanismos perversos que servem para alimentar especulações irracionais e nefastas para o progresso e para justiça nas sociedades.

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

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