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Pedro Santana Lopes - Advogado 10 de Dezembro de 2014 às 21:05

Agarrar o tempo novo nos arredores de Lisboa

Um fenómeno que se torna cada vez mais impressionante, e que já referi em artigo anterior ("À espera do futuro", 29 de maio de 2014), é o da estagnação do tecido económico em terras que estão próximas das duas principais cidades do País.

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Essa realidade é talvez mais evidente na Grande Lisboa do que no Grande Porto e as pessoas que moram no centro dessas urbes, e que assistem a alguma recuperação da atividade económica, não fazem muitas vezes ideia do assustador contraste que se verifica. Em Portugal, mal ou bem, embora "mais mal" do que bem, continua-se a pensar o futuro em função dos fundos europeus. Só que as autarquias têm hoje em dia muitas possibilidades de intervenção. Sabemos que os recursos financeiros escasseiam, principalmente nas terras com atividade económica mais limitada, mas também é verdade que as mesmas autarquias deram um exemplo fantástico durante estes anos de intervenção externa, de redução do respetivo endividamento. A redução do endividamento não significa obviamente alargamento da margem para investimento. Mesmo que os encargos com a dívida, ou com o serviço da dívida, fiquem menos pesados, isso não implica automaticamente que os diferentes municípios possam abalançar novos projetos. Mas há muita coisa que pode ser feita com poucos recursos. Com imaginação, ousadia, promoção, concertação com outras entidades no âmbito do turismo e de outros departamentos da administração pública, muito pode ser feito.

 

Por exemplo, há concelhos que ficam a dezenas de quilómetros da capital e que têm construído um sistema de atratividade cada vez mais eficiente para muitas famílias, nomeadamente, casais jovens. Vou mencionar dois, um a norte, outro a sul de Lisboa: Mafra, especialmente na Ericeira, e Alcochete. São concelhos que têm pensado exatamente na melhor maneira de atrair pessoas, construindo espaços verdes, urbanizando terrenos em zonas que proporcionam uma agradável qualidade de vida, atraindo investimentos ou aproveitando as condições naturais para terem âncoras de desenvolvimento. Em Mafra, a natureza, o mar da Ericeira, a cultura à volta do seu palácio, as vias de comunicação rápida, entre elas uma auto-estrada, e tudo o mais que floresce naquela terra arrasta cada vez mais pessoas para lá terem a sua residência permanente. Em Alcochete, bem ou mal, nasceu um "outlet" muito conhecido, o Freeport, que atrai milhares de pessoas praticamente todos os dias. A marginal de Alcochete está cada vez mais bem arranjada, a gastronomia é boa, a nova habitação é de projetos arquitetónicos com qualidade e com razoável aproveitamento do espaço público.

 

Por outro lado, há casos mais difíceis, não estando em causa a capacidade ou a boa vontade de quem dirige essas terras.

 

Dou um exemplo que conheço razoavelmente, a Azambuja. Da Azambuja parte o comboio moderno que demora 20 minutos a meia hora até à Gare do Oriente, só parando em Vila Franca de Xira. Pessoas desse concelho e dos concelhos circundantes estacionam os seus carros por tudo quanto é lugar à volta da estação da Azambuja para irem trabalhar para Lisboa e, naturalmente, regressarem ao final do dia.

 

A Azambuja, que tem uma rua principal em que as pessoas atravessam mas não param, prejudicando, naturalmente, o comércio local, quase não se vira para a estação e zona envolvente, por modo a que a economia local aproveitasse todo o fluxo de milhares de pessoas que diariamente utilizam o comboio para ir trabalhar para Lisboa. Com franqueza, talvez um pouco pelos efeitos do malogrado projeto do aeroporto da Ota, noto essa região do Ribatejo, e de algumas zonas da área Oeste, ainda à procura do tempo novo e mais distantes dele do que regiões a sul de Lisboa, nomeadamente no Alentejo.

 

A norte de lisboa, Óbidos e agora Peniche são bons exemplos de terras que, com base em eventos culturais ou ligados ao mar, ou ao Natal, ou ao chocolate, ou seja, ao que for, atraem cada vez mais pessoas.

 

Santarém, capital de distrito, é também outro exemplo de terra cheia de riqueza que, com o empurrão engenhoso que certamente lhe será dado pelos novos responsáveis autárquicos, pode conhecer tempos completamente diferentes. Sei bem do que falo pela minha experiência de trabalho na Figueira de Foz e espero que os responsáveis públicos nacionais, regionais e locais, mas também os privados, sejam capazes de unir esforços e de ultrapassar esta barreira que a difícil recuperação económica tarda em derrubar nestas terras em volta dos principais centros urbanos.

 

Advogado 

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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