Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 03 de julho de 2019 às 20:15

Como deve ser

Em vez de se saber o prato favorito ou a viagem de que cada candidato mais gostou, a comunicação social e os eleitores deviam procurar saber, com todo o empenho, o que pensa cada candidato sobre cada tema que mais interessa aos portugueses.
1. Apresentar um Programa a umas eleições é algo de grande significado. Costuma-se dizer sobre os Programas que poucos lhes prestam atenção e que "ninguém os lê". Não deve ser assim. 

 

Construir um Programa de uma nova força política é um ato de amor. São horas e horas, dias e noites, semanas, meses, a fazer essa renda, esse quadro, esse tapete de Arraiolos ou persa, essa escultura. Na verdade, trata-se de escrever, mas também de esculpir, de pintar. Ir à procura do que nos une, do que nos identifica, do que nos mobiliza, é uma tarefa transcendental.

 

Umas eleições deveriam ser isto: cada entidade que concorre, apresentar o seu Programa, as suas medidas, as suas propostas e os eleitores escolherem. Essa parte devia valer 50%, como nos exames nacionais do 12º ano - e a escolha da liderança e da equipa, outro tanto. Digo-o metaforicamente porque não se pode correr o risco de uma equipa ter de executar o programa de outros.

 

Em vez de se saber o prato favorito ou a viagem de que cada candidato mais gostou, a comunicação social e os eleitores deviam procurar saber, com todo o empenho, o que pensa cada candidato sobre cada tema que mais interessa aos portugueses. Cumprir o dever de o ter pronto a tempo e horas, colocá-lo numa plataforma digital participativa, sujeitá-lo a discussão pública, ir correr o país ao encontro dos portugueses sabendo já as propostas de princípio que se defende, deveria ser regra. Infelizmente, não é. Poucas a cumprem. Ou quase ninguém.

 

Essas propostas devem ser tão explícitas quanto possível quanto ao modo de serem concretizadas e devem ser responsáveis apresentando sempre, quando impliquem aumento de despesa, a respetiva contrapartida financeira.

 

Estas são algumas das boas normas de procedimento para o que deve ser tão sério na vida de um povo.

 

Por pior que se diga da política, por mais razões que a política dê para se dizer mal dos que assumem essa intervenção cívica, teimo em não ceder e em considerar que a política merece respeito se for assumida e praticada como deve ser.

 

1. De António Costa se tem dito - eu também - muitas vezes, que é um político muito hábil. Olhando para o resultado da escolha dos novos líderes europeus e para os propósitos que tinham sido anunciados pelo primeiro-ministro, cabe lembrar Durão Barroso. Acredito que António Costa, segundo o que diz, não quisesse deixar o Governo. Não sei, também, se foi mesmo convidado para um alto cargo europeu. Mas, se foi, não deveria ser o próprio a contar. E também não deveria falar em "deserção" a propósito de quem tenha feito opção diferente. Até porque, em grande medida está também a atacar António Guterres.

 

As escolhas feitas são politicamente interessantes e importantes. Esperemos que agora tudo corra bem, nomeadamente as votações no Parlamento Europeu.

A política, como deve ser, é muito exigente, seja a nível nacional ou internacional. 

 

Advogado

 

Artigo semanal à quinta-feira

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