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Pedro Santana Lopes - Advogado 26 de Fevereiro de 2015 às 00:01

Depois do "Balde de Gelo"

Durante o ano transato, o mundo assistiu, algo surpreso, à campanha do "Balde de Gelo", lançada e assumida por muitas celebridades e outras pessoas menos conhecidas.

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Curiosamente, essa campanha terá feito mais para a sensibilização do mundo para esta enfermidade do que, por exemplo, o facto de um dos maiores cientistas do mundo, Stephen Hawking, viver há décadas com essa espada sobre o seu corpo. Essa espada, em muitos casos, demora bem menos a produzir o seu efeito mais drástico nas pessoas que são atingidas por essa realidade, mas, estranhamente, nunca se verificou, até hoje, o devido despertar para uma realidade tão dura. Outras doenças graves e/ou pragas ameaçadoras conseguiram suscitar reações intensas das comunidades que se movimentam na área da saúde, entre elas, a comunidade científica. Mas, a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), na verdade, nunca o conseguiu. Por isso mesmo, o efeito surpreendente, em várias dimensões, da campanha do "Balde de Gelo".

 

Em Portugal, as respostas são também muito incipientes apesar do esforço de um conjunto restrito de profissionais de saúde. Na área da investigação, nomeadamente, muito pouco é o que existe em Portugal de modo estruturado e sistematizado para trabalhar na descoberta da cura para essa ameaçadora doença. Por isso mesmo, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa decidiu abrir uma nova linha de trabalho, em várias frentes, na área da investigação. Como foi tornado público, apoiamos há dois anos projetos de investigação, anualmente submetidos a um júri de cientistas, para durante três anos receberem um apoio de 200 mil euros. Uma das áreas é a da investigação sobre as doenças vertebro-medulares e a outra é das doenças neuro-degenerativas associadas ao envelhecimento. Em novembro do ano passado, aquando da entrega da segunda edição das Bolsas Santa Casa Neurociências, foi anunciada uma linha de apoio para a investigação sobre a ELA. Estão neste momento em fase de conclusão os regulamentos que suportam esta linha de investigação.

 

Enquanto nas Bolsas Neurociências são escolhidos projetos de investigadores completamente externos à Santa Casa, nestes novos apoios, pretende-se caminhar no sentido de uma estruturação de um núcleo de investigação mais diretamente ligado a esta instituição. Não está desligado desta opção o facto, já acima referido, de serem ainda muito poucos os investigadores que se dedicam especificamente a esta área científica, que tem tanto terreno ainda por desbravar. A Santa Casa tem desenvolvido todo este trabalho, cumprindo, naturalmente, as posições legais em vigor e, nomeadamente, o obrigatório reconhecimento por parte da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

 

É mais difícil do que as pessoas podem julgar, pôr uma instituição com mais de cinco séculos de História, apesar do imenso trabalho no setor da saúde e na área assistencial, a assumir como obrigação prioritária a investigação científica. Sempre tenho dito no exercício das funções de Provedor que considero muito importante que a Santa Casa, além de chorar com aqueles que sofrem, saiba também dar-lhes motivos de esperança e para um sorriso no olhar. Por isso mesmo, instituições como a Santa Casa não se podem limitar a tratar de quem sofre e a apoiar os que estão em situação de dependência; têm também obrigação de investir na procura das fórmulas que permitam que algumas das causas desses padecimentos sejam erradicadas. 

 

Na renovação organizativa e teleológica das estruturas e dos tecidos fundamentais da sociedade portuguesa, a assunção de uma atitude ainda mais pró-ativa na investigação na área da saúde é essencial. O significativo adiamento de uma realidade tão grave quanto a ELA, demonstra a Portugal e ao mundo que aqui há de facto qualquer coisa de errado nas prioridades do nosso quotidiano e da nossa organização coletiva.

 

Advogado

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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