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Pedro Santana Lopes - Advogado 06 de Junho de 2013 às 00:01

Esquerda: austeridade e clarificação

Na verdade, para falarem da realidade, têm de dizer o que defendem no lugar da austeridade. Ou seja, como governariam o país, como liderariam com os credores internacionais, como asseguravam as nossas necessidades de financiamento, terminando com a austeridade

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Os principais promotores da Oposição ao Governo têm um só denominador comum, segundo os próprios: o fim da austeridade. Foi dito e redito, nomeadamente, na tal reunião das "Esquerdas", na passada semana, sob o patrocínio de Mário Soares.


É uma pena que seja este o caminho escolhido por quem quer construir alternativas em Portugal. Porque só essa opção torna, por si só, completamente impossível essa solução política. E tão só porque é impossível acabar com a austeridade.

O Partido Socialista e o seu líder, António José Seguro, têm-se esforçado por deixar claro que não podem prometer tal ilusão. Recusam o empobrecimento, mas têm a seriedade de deixar claro que é impossível sair depressa desse regime de contração económica.

Recusar a austeridade é uma óbvia responsabilidade.

Tive ocasião de dizer no meu comentário semanal, nas segundas-feiras na CMTV, que tenho pena que não se construa uma verdadeira alternativa de esquerda e que PS, de um lado, e PCP e Bloco de outro (que não é exatamente o mesmo) não se aproximem e não se entendam. Sei bem que dizer isto pode parecer também irresponsável para aqueles que desejam uma alternativa sempre tranquila para os seus interesses ou para os que sonham de modo mais regular ou mais intermitente com um Bloco Central, versão "Large" ou "Extra Large". Só que o funcionamento real e efetivo da alternância entre duas verdadeiras alternativas é condição importante para a vitalidade do sistema político. Ou o facto dos portugueses só poderem escolher normalmente diferentes protagonistas, mas, no geral, políticas muito parecidas leva a deterioração das relações entre os representados e os representantes. O sistema político fortalece-se se as pessoas tiverem mesmo de lutar por aquilo que acreditam e de combater aquilo que não querem de todo. O problema no nosso sistema político, é que muitas pessoas de centro e de direita não temem ou até preferem o PS no poder porque, como se sabe, em muitas situações o PS leva a cabo políticas ainda "mais à direita" que a coligação PSD/CDS. Quando o PS está no poder, os seus aliados principais têm sido os grandes empresários e não as PME ou os trabalhadores. Foi assim com António Guterres e foi assim com José Sócrates. O PCP já não tem a União Soviética, já não há o Muro de Berlim, já não tem os mesmos sonhos internacionalistas, já não representa o mesmo perigo. O PS não tem de ter medo do PCP nem complexos de direita fazem qualquer sentido num partido socialista. A questão está também em saber se o PCP e o Bloco se querem tornar partidos de governo e, nessa medida, apresentarem propostas exequíveis. Se a esquerda que se reuniu na Aula Magna continuar a falar de uma economia, de um país e de uma Europa que não são os que existem, então o PS continuará longe de qualquer aliança de esquerda. Volto a dizer: era mais clarificador mesmo para a fórmula Um Governo, Uma Maioria, Um Presidente (tema para futuros e vários desenvolvimentos).

Na verdade, para falarem da realidade, têm de dizer o que defendem no lugar da austeridade. Ou seja, como governariam o país, como liderariam com os credores internacionais, como asseguravam as nossas necessidades de financiamento, terminando com a austeridade. Não há nada que afaste mais as pessoas da política do que fazê-las sentirem-se enganadas. E, para além disso, fazem mal em subestimar a inteligência das pessoas: não há quem acredite que isso seja possível. É também por essa desfocagem que, apesar da grave crise que temos vivido, o Governo mantém condições para continuar. Não será por acaso que várias sondagens sobre as próximas eleições autárquicas, recentemente divulgadas, deram ao principal partido do Governo resultados bem mais positivos do que aqueles que se têm vaticinado.

Advogado
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Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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