Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 17 de dezembro de 2014 às 20:19

Ilogicamente natural

Um dado de reflexão que penso ser interessante nas circunstâncias atuais, liga-se com a relação que os dois maiores partidos em Portugal têm com os agentes económicos portugueses.

 

É evidente que não falo de casos individuais, mas de tendências gerais nesse relacionamento. A propósito da atual comissão parlamentar de inquérito ao BES, tem sido visível um tom mais carregado, quer na forma quer no conteúdo, por parte do PSD, em relação às responsabilidades da administração do BES. Ora, a história do PPD/PSD é marcada por dificuldades no relacionamento com os maiores grupos económicos portugueses. Muitos deles, nunca apreciaram Francisco Sá Carneiro enquanto foi vivo e, para falarmos de uma época já posterior, também, por exemplo, Marcelo Rebelo de Sousa os afrontou por diversas vezes, com consequências pesadas nas reações que os líderes desses grupos tiveram a palavras e atitudes do então líder do PSD. Por razões diversas, também comigo, na chefia do Governo e na liderança partidária, não foi fácil esse clima e determinadas versões desse tempo histórico garantem uma responsabilidade considerável de alguns desses agentes no processo que levou à dissolução do Parlamento pelo então Presidente Jorge Sampaio.

 

Também agora com Pedro Passos Coelho as distâncias têm sido marcadas e marcantes e têm-se sucedido declarações e atitudes que culminam em frases do primeiro-ministro, expressando o seu contentamento por a sociedade portuguesa se estar, no seu entender, a libertar de poderes excessivos que a têm oprimido.

 

Da parte do PS, e sem que isto revele qualquer juízo de valor, ou qualquer tipo de insinuação sobre relações impróprias ou ilegítimas, tem havido historicamente neste regime uma maior facilidade de relacionamento. Aliás, quase sempre, os grandes grupos económicos preferem os socialistas no poder ao PSD. Tomemos esta afirmação sem maldade e sem que signifique, minimamente, que contará com algum tipo de condescendência indevida por parte do PS. Mas é um facto, historicamente tem sido assim. Talvez por os capitalistas sentirem um certo fascínio por socialistas e vice-versa, dado que, supostamente, estarão mais distantes, mas a verdade é que quando o PS está no poder as coisas são diferentes. Porque será esta diferença? É manifesto que o PPD/PSD fala sempre mais nas PME e aparece sentimental e intelectualmente mais ligado a elas. É um pouco a ideia do partido das pessoas que subiram a pulso na vida, na imagem que Carlos Mota Pinto celebrizou a propósito dos militantes do PSD. Ora, a gente que sobe a pulso na vida e alcança algum sucesso com muito esforço, geralmente gosta menos daqueles que nasceram em berço de ouro ou que têm tudo por herança ou pelo destino da vida. O PS, por seu turno, nunca teve grande rebuço em olhar para as grandes empresas como alavanca do tecido económico português.

 

Sublinhe-se que qualquer das duas opções é legítima, o que não diminui um certo sabor a ilogicidade que ressalta do quadro geral.

 

Estas diferenças têm significado político? Têm sempre. Mesmo quando a economia e a política não se misturam para além do devido, o que se passa num reino e no outro leva a que, de modo natural, se condicionem reciprocamente. Com Pedro Passos Coelho e com António Costa esta diferença continuará a fazer-se sentir? Estejamos atentos.

 

Advogado 

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

 

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