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Pedro Santana Lopes 23 de Abril de 2014 às 19:20

O que realmente vale a pena

Podem ser feitas muitas análises, comentários e críticas sobre a maneira de ser e de governar de Pedro Passos Coelho. Mas, estou certo de que os portugueses não estão de acordo com essa ideia.

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1. Há muitas páginas escritas sobre a gestão do sucesso. Muitos textos foram já publicados sobre a dificuldade dessa tarefa. Portugal regressou aos mercados esta quarta-feira, 23 de Abril de 2014. E fê-lo, importa sublinhar, com uma taxa de juro que se equipara à conseguida pela Irlanda aquando da saída do respetivo programa de ajuda externa. Tem de ser lembrado que há poucos meses quase ninguém acreditava que isto pudesse acontecer. Quando o ministro Rui Machete falou, em Novembro do ano passado, numa sonhada taxa de juro de 4,5 por cento estávamos ainda bem longe dela e foi considerado como uma divagação de um ministro acusado por repetidas declarações polémicas. Gerir o sucesso é muito difícil, mas não é menos fácil os que pecam por falta de crença, retirarem lições dos defeitos e das consequências do seu pessimismo atávico. As sociedades constroem-se com realismo e o Governo das nações dispensa ilusões. Mas é o realismo que é aconselhado e nem otimismo excessivo nem pessimismo entranhado levam a bom porto. Nestas horas mais recentes nada mais resta aos opositores do que tentar descobrir causas externas para o sucesso alcançado.

 

2. Quando regressei no passado domingo, após uns dias ausente do País, deparei-me com a nova onda de ataques ao primeiro-ministro, a propósito de uma entrevista televisiva. Um comentador da área da maioria falou em grande desilusão e um colunista da oposição falou expressamente num primeiro-ministro impreparado. Confesso que não vi a referida entrevista, mas tive a ocasião de ouvir boa parte do debate quinzenal, também esta quarta-feira, no Parlamento. E manda a verdade dizer que podem ser feitas muitas análises, comentários e críticas sobre a maneira de ser e de governar de Pedro Passos Coelho. Mas, estou certo de que os portugueses não estão de acordo com essa ideia, que alguns, de quando em vez, tentam passar sobre os excessos do Governo. Ouvindo Pedro Passos Coelho, mas seguindo também a lógica da sua argumentação, é fácil constatar exatamente o contrário: ele está muito bem preparado, conhece muito bem os dossiês e não fica atrás de ninguém, pelo contrário, em qualquer debate sobre as matérias da governação. Toma decisões erradas? Seguramente. Peca por algumas omissões? Certamente. Já teve um ou outro engano? Provavelmente. Mas, se assim não fosse, haveria alguma coisa de errado, tínhamos chegado à conclusão de que não pertenceria ao mundo dos humanos.

 

Já aqui falei em artigo anterior sobre as tentativas de menorização que foram dirigidas no passado ao próprio primeiro-ministro, a certa altura a Vítor Gaspar, e depois à atual ministra das Finanças. Todas se vieram a revelar desajustadas. E o tempo tem demonstrado que não é por aí que os opositores podem ter sucesso.

 

3. Se querem ter sucesso, de facto, têm de mostrar que têm melhores políticas, melhores soluções, melhores propostas para os desafios da sociedade portuguesa. Se algo se espera dos partidos que se consideram de esquerda, é que sejam especialmente interventivos, imaginativos, criativos em matéria de políticas sociais. Os tempos que vivemos, eu disse e repito-o, exigem a construção de um Estado diferente, um Estado solidário no lugar do antigo Estado social. Não existem modelos sociais ou económicos perfeitos ou eternos. O papel que o Estado desempenhou nas últimas décadas na área civilizacional em que nos inserimos também, por definição, não duraria para sempre. Com as novas realidades económicas, com os novos termos de competição à escala global, com as novas tecnologias, era forçoso que o Estado tivesse de entrar num novo ciclo. E assim vai acontecer. Ora, oiço falar muito pouco disso, quer à direita quer à esquerda.

 

4. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) e a União das Misericórdias Portuguesas (UMP) assinaram, também esta quarta-feira, um acordo que vários dos presentes consideraram histórico. Trata-se, ao fim e ao cabo, de um passo que pretende desbravar caminho no sentido de construir as tais novas respostas para as novas realidades sociais, nomeadamente, as do envelhecimento da sociedade portuguesa, das restrições do Serviço Nacional de Saúde e da cada vez maior procura de Cuidados Continuados e Paliativos. Muitas vezes o sucesso de novas políticas depende, principalmente, da capacidade de descobrir as adequadas formas de organização das instituições existentes. Neste tempo, em que a sociedade chama de novo a um papel mais ativo as Misericórdias e as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) em geral, não podem também estas entidades trabalhar no quadro em que o faziam anteriormente.

 

Há muita matéria, a este propósito, que está em cima da mesa para decisões a vários níveis. Tive ocasião de falar nessa cerimónia nas contradições que, por vezes, existem entre a convicção e a circunstância. Acontece, na verdade, que, por vezes, sentimos o dever de uma atitude, mas sentimos também que ela pode não ser devidamente compreendida e aceite por outros. A opção a tomar deve ser em função dos valores que estão em causa e quando o estão as necessidades dos mais desfavorecidos ou dependentes. A escolha tem de ser de encontrar a coragem para rasgar horizontes.

 

Ao fim ao cabo é isso que se espera também no sistema político em geral, que em vez de se tentar menorizar os adversários, se procure valorizar o trabalho na procura de caminhos que levem a sociedade portuguesa a consolidar a via do crescimento económico, descobrindo ao mesmo tempo as rotas de construção do novo tipo de Estado, o Estado solidário.

 

Advogado

 

Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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