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Pedro Santana Lopes 20 de Maio de 2020 às 20:39

Para lá das aparências

Se há algo que António Costa tem demonstrado, neste segundo mandato, nomeadamente nas difíceis circunstâncias atuais, é uma crescente frieza. Uma frieza por vezes, também ela surpreendente, na condução dos acontecimentos e na comunicação com os portugueses.

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A abertura de várias épocas, como por exemplo a balnear, tem sido adiada pelas razões que se conhecem. Estou a falar de factos, porque não gosto de brincar com assuntos sérios. Agora, a época do regresso da política, que estava mais ou menos suspensa, foi inaugurada por António Costa. Ele lá terá as suas razões, mas, a confirmar-se o que foi quase garantido por José Miguel Júdice, no seu espaço da SIC Notícias desta semana, que Marcelo Rebelo de Sousa não sabia, ainda mais a autoria da reabertura da política só tem um nome, e esse é o do primeiro-ministro. Que foi surpreendente foi: um primeiro-ministro anunciar, na prática, um apoio à recandidatura de um Presidente da República numa visita a uma empresa privada – por muito importante e muito “alemã” que seja essa empresa – é, pelo menos, insólito.

Se há algo que António Costa tem demonstrado, neste segundo mandato, nomeadamente nas difíceis circunstâncias atuais, é uma crescente frieza. Uma frieza por vezes, também ela surpreendente, na condução dos acontecimentos e na comunicação com os portugueses. Custa a crer que tenha sentido igual frieza aquando da situação em que foi colocado perante o Parlamento e perante o país, no caso da transferência ordenada por Mário Centeno, para o Novo Banco. Seria praticamente impossível a qualquer primeiro-ministro não ficar enfurecido perante uma situação como essa. Tem sido estabelecida uma relação entre as duas situações, como se a declaração de António Costa na Autoeuropa, pretendesse disfarçar o efeito negativo do assunto do Novo Banco. Ou mais ainda, como maneira de conseguir a proteção política e institucional do Presidente da República nessa tão desagradável questão surgida com o ministro das Finanças, ainda presidente do Eurogrupo.

O raciocínio parece-me demasiadamente lógico, ou excessivamente básico, ou perigosamente elementar. Não se devem misturar assuntos, e ainda menos dessa responsabilidade e dessa dimensão. Custa-me a crer que António Costa tenha feito essa declaração tendo como razão principal qualquer uma das antes mencionadas. Trata-se, para todos os efeitos, de uma jogada política de alto risco, para o Presidente da República e para o primeiro-ministro. Hoje pode parecer uma opção pela segurança máxima, mas isso pode ter muito de ilusão, nos tempos que o mundo atravessa.

Na mesma semana, praticamente, são conhecidos os apoios do Estado aos órgãos de comunicação social, embora não se conheçam ainda os critérios. Há sinais dos tempos que fazem pensar na evolução do modo de funcionamento do nosso sistema político. Não estou, por ora, a censurar esses apoios. Aliás, em vários assuntos, sinto-me cada vez mais heterodoxo em relação às opiniões dominantes. Essencial, sempre, é que se perceba claramente o que está em causa. As características dos tempos atuais tornam mais difícil essa perceção, o que é sempre incomodativo para quem gosta de observar e/ou agir politicamente. Mas, com paciência, é possível entender para além dos rituais do poder e da comunicação. A história do mundo é feita das dinâmicas sociais e económicas que, muitas vezes, a política demora a entender.

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