Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 10 de julho de 2019 às 19:31

Propostas pouco sérias

Costumo dizer que uma das coisas mais feias em política é o contraste entre o que se diz antes de eleições e o que se faz depois de assumir o poder. É uma vergonha e considero que é uma das duas principais razões para afastar os cidadãos comuns da vida política.

Já disse também várias vezes que devia existir uma regra escrita e assinada por quem se candidata, segundo a qual quem, na altura de assumir funções, chegasse à conclusão de que não podia executar o prometido em campanha deveria considerar-se impedido e/ou ser impedido de exercer o cargo.

 

Vai dar mais ou menos ao mesmo ao acima referido que aqueles que estão na oposição façam promessas eleitorais com base em cenários macroeconómicos resultantes de simulações voluntaristas. Quando se ouvem essas promessas, essas projeções, dá sempre a ideia de que o raciocínio é feito ao contrário: fazem-se as contas a quanto custariam as promessas que se querem fazer, para se conseguir o maior número de votos possível, e depois traça-se o quadro macroeconómico, nomeadamente o nível de crescimento da economia, à medida necessária para caberem os efeitos do prometido. O PS fez isso em 2015 e o PSD fez agora o mesmo em 2019. O cenário macroeconómico, agora apresentado, surge com muito pouco rigor, quanto ao enquadramento internacional na perspetiva de evolução económica. Trata-se de um exercício que não se coaduna com a marca de rigor que alguns gostam de reivindicar. Qualquer avaliação de todas as previsões feitas para a economia europeia e para a economia portuguesa, pelas mais variadas organizações internacionais, desmentem o quadro que foi apresentado.

 

Quando as propostas e as estratégias não resultam de convicções e de posições firmes e duradouramente reiteradas, mas antes derivam de desesperos conjunturais, descambam sempre para a ficção e contradição, sabendo e soando inapelavelmente a falso. Inventar receitas orçamentais que não vão existir e falar em corte de despesas sem as identificar devidamente, é um exercício pouco sério para fundamentar promessas que, nesses termos, nunca poderão ser cumpridas. Todas as propostas que se apresentam a eleições devem ter uma estimativa de custos rigorosa e a correspondente contrapartida financeira, com igual credibilidade na estimativa que seja feita. Pelos vistos há marcas de rigor que não o são, parecem antes máscaras.

 

A proposta fiscal apresentada pelo maior partido da oposição não dignifica a política. Ainda esta terça-feira, às 7h da manhã, à porta de um centro de saúde, no concelho de Sintra, cidadãos que aguardavam, em longa fila, a abertura do centro para poderem tratar-se, falavam uns para os outros sobre a desconfiança do que tinham ouvido na véspera numa entrevista na TVI. Eram pessoas com pouca instrução. Mas todos os cidadãos, por mais ou menos instrução que tenham, sabem distinguir o que é congruente do que não faz sentido. Que bom será se puderem ser debatidas propostas realistas e viáveis para a vida dos portugueses nos próximos quatro anos. 

 

Advogado

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