Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 15 de janeiro de 2020 às 19:50

Sismo e não cisma

Com a devida vénia e com todo o respeito, nada houve de tão perturbador como esta coexistência de dois Papas. O filme que por aí circula, com todos os seus defeitos, parece ter sido algo premonitório.

Por regra, não escrevo nem falo publicamente sobre assuntos da Igreja Católica, a que pertenço como leigo.

 

Sigo essa regra também com o que poderiam ser assuntos internos da própria Igreja, o que debate as antigas ou novas orientações e posições e também com os escândalos que têm atingido vários membros do clero.

 

No mundo de hoje quase nada é reservado e a Igreja Católica, antes tão discreta, não escapa ao furor das notícias. Tudo vai parar a algum órgão de informação em nome da transparência, por força de vinganças, ou por vontade de punição e ânsia de purificação. Cada vez mais, pessoas de todas as gerações sentem e dizem que no mundo de hoje quase nada é como era há alguns anos, poucos ou muitos, consoante as idades de quem comenta.

 

Se houve novidade brutal foi a da existência de dois Papas, o atual e o emérito. Foi um autêntico sismo já que não queremos falar em cisma. O Papa era, para muitos e muitos, a imagem de Deus na Terra e era alguém que, sendo humano, estava acima dos humanos, algures entre o céu e a Terra. Posso mesmo dizer que essa "novidade" mexeu com a fé de muitos ou, pelo menos, fez mal a muitos que têm fé. Veio agora a notícia de divergências ou diferenças entre os dois Papas. Não quero qualificar, só queríamos todos que não fosse verdade.

 

Estamos num mundo em que os ventos de destruição sopram com cada vez mais força. O materialismo, o niilismo, o amoralismo, o egocentrismo, o radicalismo, cada vez mais fazem sentir a sua presença. Mísseis de guerra enganam-se e destroem aviões civis, refugiados atiram-se aos mares porque não obtêm vida nas suas terras, incêndios duram meses sem parar, em diferentes continentes, transeuntes são golpeados em série por terroristas já não transportando bombas, mas empunhando facas.

 

Ora, quando se precisava ainda mais de olhar para o Vaticano como antevisão de um céu contrastante com esse Inferno, chegam-nos imagens e notícias bem diferentes das que necessitávamos.

 

Com a devida vénia e com todo o respeito, nada houve de tão perturbador como esta coexistência de dois Papas. O filme que por aí circula, com todos os seus defeitos, parece ter sido algo premonitório. Ouvirmos agora que o Papa emérito quer retirar o seu nome e a sua imagem de um livro em que surge com um cardeal, é, pelo menos, insólito, para não dizer, inconcebível. Não sou por Ratzinger nem por Francisco. Simples crente pecador, sou pelo Papa, só um Papa, por uma Igreja, farol na fé.

 

Advogado

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