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Pedro Santana Lopes 13 de Maio de 2020 às 20:10

Tempo de ajudar

É tempo de ajudar a que o gradual retorno à normalidade corra tão bem quanto possível. É tempo de ajudar a que as decisões dos responsáveis do Estado sejam tão úteis e tão válidas quanto possível. Ao fim e ao cabo é tempo de ajudar a fazer bem e de ajudar a fazer o bem.

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Tenho ouvido várias teorias sobre a dúvida quanto à suspensão do combate político durante a emergência e a calamidade que se têm vivido. Pela minha parte, tenho dito e redito que considero que são tempos de unidade nacional. Se não é nestes tempos de ameaça global que há unidade na política, então nunca há. Isso parece-me óbvio, como parece óbvio que o facto de haver unidade não significa duas coisas:

1. Que a unidade ponha a possibilidade e o dever de se discordar, publicamente quando não se concorda e o assunto é muito sério;

2. Que essa atitude de unidade não deva ser recíproca, isto é, da oposição para com o Governo, mas também do Governo para com a oposição.

Exemplos do primeiro caso? Naturalmente, a questão do Primeiro de Maio, e agora a polémica em torno da Festa do Avante, ou ainda o que se passou com a injeção de capital no Novo Banco ou apoios à economia. Não há suspensão da política, nem preocupação com a unidade nacional, que possa impedir as pessoas, à direita, ao centro ou à esquerda, de concordarem ou discordarem. E concordar ou discordar não significa que seja só com o Governo, e com o Presidente da República, e com a Assembleia da República. Pode ser também com atitudes de sindicatos, confissões religiosas, de opiniões de comentadores, de atitudes de jornalistas. Ter opinião não passou a ser proibido. Tem é de haver a consciência de que nos devemos ajudar uns aos outros, com educação e elevação, para que sejam encontradas as melhores soluções. Na política europeia e mundial há muito espaço, hoje em dia, para os radicais, para os que gostam de ofender, gritar, de explorar os sentimentos mais básicos, principalmente das pessoas menos esclarecidas. E esses, normalmente, não têm intervalos nas enormidades que vão dizendo ou fazendo. Por outro lado, a referida reciprocidade no sentimento da preocupação da unidade nacional deve levar o Governo e a oposição a conversarem mais, de modo reservado, do que a debaterem na praça pública. António Costa tem procurado fazê-lo, e Rui Rio, que lidera o maior partido da oposição, tem procurado corresponder.

Na verdade, os tempos, como sabemos, são muito difíceis. Tenho pensado muita vez, que nem a mais difícil das decisões que tive de tomar enquanto primeiro-ministro – e que talvez tenha sido em política externa – se compara em dificuldade às que têm de ser tomadas, nestas circunstâncias, por quem tem de decidir. Por isso mesmo, respeito muito e dou valor a quem tem de o fazer, aos mais variados níveis, mostrando sangue-frio, capacidade de discernimento, e também de pensar no interesse do país antes de qualquer interesse próprio eleitoral. Em minha opinião, é injusto e indevido julgar e avaliar ministros ou líderes partidários nestas alturas. Ao mesmo tempo, também não atribuo grande significado às sondagens, que dão grande apoio ao Presidente da República e ao Governo, e eventualmente a outros protagonistas. O tempo é ainda de exceção. A política não está suspensa, mas não pode ser como normalmente é. Os limites são diferentes. A política voltará, a pouco e pouco, com o tão esperado e progressivo regresso à normalidade.

O tempo agora é, acima de tudo, de ajudar. É tempo de ajudar quem decide, é tempo de ajudar quem precisa, é tempo de ajudar quem quer ter motivos para sentir esperança. É tempo de ajudar a que o gradual retorno à normalidade corra tão bem quanto possível. É tempo de ajudar a que as decisões dos responsáveis do Estado sejam tão úteis e tão válidas quanto possível. Ao fim e ao cabo é tempo de ajudar a fazer bem e de ajudar a fazer o bem.

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