Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Pedro Santana Lopes - Advogado 29 de Janeiro de 2015 às 00:04

Um caso "syrissimo"

Estou convencido de que esta estratégia do governo grego de tomar medidas em catadupa, logo de início, lhe pode dar margem para a negociação com a União Europeia e, em especial, com a Zona Euro.

  • Partilhar artigo
  • 4
  • ...

 

Passo a explicar a minha ideia: ao decidir imediatamente sobre promessas eleitorais, como o aumento do salário mínimo, o pagamento de impostos em prestações, a anulação de alguns despedimentos na função pública, e outras medidas que têm e terão reflexo na vida concreta das pessoas, o governo do Syriza ganha crédito no que respeita à coerência entre o que disse antes das eleições e o que pratica depois delas.

 

Se há matéria em que o Syriza precisará, em princípio, de alguma margem negocial é exatamente em relação às negociações com a troika e com os responsáveis da Zona Euro. Oitenta por cento da população grega quer continuar a ter o euro como moeda da Grécia e esse fator foi determinante na mudança de posição do Syriza, sobre esse tema, em relação ao que defendia aqui há poucos anos. Por isso mesmo, se houvesse alguma cedência doutrinária, ideológica, política, nas opções que eventualmente sejam objeto de acordo entre a UE e a Grécia, isso, para a população grega, terá pouca importância no plano da coerência e dos resultados do governo. Se o novo governo tivesse voltado atrás naquilo que prometeu e decidiu logo nas primeiras horas, seria mais complicado, porque o povo não perdoaria tamanho embuste. Tomar medidas no plano interno que estejam de acordo com as bandeiras apresentadas ao eleitorado, e que vão contra as exigências da troika, antes mesmo de se sentarem à mesa com os responsáveis da Zona Euro, foi uma opção estrategicamente habilidosa.

 

Surgiu porém um dado novo que vem ensombrar com algumas nuvens todos estes raciocínios e cogitações, em certa medida mais otimistas: a manifestação, também nas primeiras horas, de um certo tipo de ligação às posições da Rússia. Ter sido o embaixador russo em Atenas o primeiro a ser recebido pelo novo primeiro-ministro grego tem um significado que não pode ser ignorado. E está por apurar se essa atitude representa mais uma jogada tática ou estratégica para eventuais ganhos de causa nas negociações com a UE ou se corresponde mesmo a uma opção política de fundo. Se for a segunda hipótese a verdadeira, então a Grécia pode tornar-se um caso ainda mais sério do que se pensava. Aí estaremos já noutro plano onde as ruturas passam a ser menos improváveis.

 

A análise detalhada dos curricula, pelo menos das principais figuras do novo governo da Grécia, em nada desmente uma linha mais radical. Curiosamente, não vi nos dados curriculares nenhuma referência a estudos ou docência em universidades russas. Pelo menos, o novo ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, tem lecionado nos EUA. Sem dúvida alguma de que tudo aquilo que se está a passar na Grécia é um extraordinário laboratório de investigação, quer para serviços de informações, quer para universidades, quer para embaixadas, quer também para empresários e responsáveis de sociedades financeiras e fundos de investimento, entre outros de muitos, neste momento certamente atónitos e estupefactos com aquilo que se vai sabendo. Estupefacta está também a bolsa de Atenas que caiu quase 10 por cento no dia seguinte à posse do novo Governo.

 

Advogado

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias