Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 06 de junho de 2019 às 19:27

Uma estreia relevante

Diz quem sabe que este gesto de Portugal pode ter como contrapartida, no plano económico, a concretização de importantes investimentos chineses, nomeadamente no novo terminal do porto de Sines, ou na energia, ambiente e águas.
1. Interessante o aparente desinteresse com que assuntos importantes são tratados em Portugal. O facto do nosso país ter colocado obrigações em moeda chinesa, o que acontece pela 1ª vez na nossa história e na história do continente europeu, suscitou menos atenção do que a notícia de que tivesse nascido um novo panda no jardim zoológico. Nem suscitou emoção o facto de esses títulos terem sido subscritos a 4,09% quando, se tivesse sido em euros, a taxa teria sido provavelmente negativa. Está bem que o montante de capital não era muito elevado, 260 milhões de euros em moeda chinesa (2 mil milhões de ren minbi) pelo que o prejuízo não foi muito grande. Mas que tem um enorme significado político e que pode ter importantes consequências também no plano económico, isso sem dúvida nenhuma.

 

Ao seguir este caminho, Portugal fez uma opção da qual as chancelarias tomaram certamente muito boa nota, nomeadamente a dos EUA. Isto acontece, como se sabe, numa altura em que ainda não há acordo entre os Estados Unidos e a República Popular da China, na questão das pautas comerciais. Diz quem sabe, que este gesto de Portugal pode ter como contrapartida, no plano económico, a concretização de importantes investimentos chineses, nomeadamente no novo terminal do porto de Sines, ou na energia, ambiente e águas. Em boa medida, como pano de fundo, está aqui sempre presente a questão da autonomia da política externa portuguesa. Numa Europa que não sabe bem para onde vai, ficar à espera das decisões dos países mais poderosos podia ser um erro crasso até porque, então, esta nossa "ousadia" já não teria qualquer valor.

 

De certo modo, é de assinalar aqui alguma continuidade da política externa portuguesa pois esta abertura à cooperação económica com a China vem já, pelo menos, do Governo de Pedro Passos Coelho e tem tido acentuada continuidade neste executivo.

 

2. Esta matéria da continuidade na política externa, ou, dito de outro modo, de um permanente e desejável consenso entre as diferentes forças politicas, é um valor que tem que ser recuperado na democracia portuguesa. Aqui, estamos perante uma certa continuidade numa atitude que reflete, como se referiu, uma autonomia de decisão do Estado Português e isso é também relevante numa fase da história em que na União Europeia cada estado anda a tratar de si. É aliás bom recordar que Portugal é um dos poucos países da União Europeia que tem um memorando assinado com a China para a nossa participação na "Belt and Road Iniciative". O mundo está, manifestamente, a mudar, nomeadamente no quadro das relações estratégicas. Basta olhar para as declarações do presidente dos Estados Unidos na sua visita a Londres, para se perceber como o futuro próximo já vai ter pouco a ver com o presente, nomeadamente em matéria económica. Portugal precisa "como de pão para a boca" de investimento externo. Em minha opinião, precisa acima de tudo de investimento privado, seja ele nacional ou estrangeiro e precisa também de mais investimento público nacional. Já quanto a investimento público de outros Estados tem de se ser, naturalmente, muito criterioso. Mas, repito: mais uma vez, temas relevantes passam ao lado no interesse da opinião pública. Há sempre um jogo de futebol para ver e depois analisar durante ainda mais horas do que a hora e meia que dura cada partida.

 

Advogado

 

pub

Marketing Automation certified by E-GOI