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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 01 de Abril de 2010 às 10:02

A bancarrota do BPP

Está a falir um banco em Portugal: o Banco Privado Português. É a primeira falência de um banco desde quase Salazar. É uma péssima notícia. E, no entanto, o ar parece mais limpo agora. Porque há um triunfo moral. O Banco de Portugal vai finalmente...

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Está a falir um banco em Portugal: o Banco Privado Português. É a primeira falência de um banco desde quase Salazar. É uma péssima notícia. E, no entanto, o ar parece mais limpo agora. Porque há um triunfo moral.

O Banco de Portugal vai finalmente tapar a cova em que BPP está deitado há muito. Caído há ano e meio da graça em que imprudentemente vivia, o BPP passou a ser um zombie. Há quase um ano, aqui escrevi em editorial: "O BPP morreu." Não foi uma vidência. Era uma evidência.

O estertor durou de mais, o que se explica com o tempo até chegar à solução do mega-fundo para os clientes de retorno absoluto. De todos os prejudicados desta triste história do capitalismo emergente, especulador e trapaceiro, são eles os maiores. Os tribunais decidirão se foi crime. As vítimas não têm dúvidas: olham para o seu dinheiro e sabem a resposta.

Esta história do BPP e do infame "retorno absoluto" tem responsáveis e os responsáveis têm nomes e os nomes são os dos administradores, começando pelos dois presidentes que fizeram o BPP: João Rendeiro e Paul Guichard. Duas faces da mesma moeda: um foi cara, o outro foi coroa. Inocentes até prova em contrário. Mas com ónus: se não foi por eles, foi com eles que os clientes foram enganados. Mesmo que sem dolo: por deslumbramento com a sua magnífica construção; cegos para a vulnerabilidade face à valorização bolsista; incompetentes para medir as necessidades de capital do banco.

Os clientes receberão em quatro anos quase todo o seu dinheiro (no melhor cenário: o dinheiro todo). Eles foram enganados e roubados nas suas expectativas, mas esta solução é menos má. Mesmo com a agonia das contas congeladas.

O BPP sai da economia e segue para a Justiça, para uma catadupa de processos. Mas fecha para balanço, o balanço em que clientes e accionistas perderam dinheiro, em que a Orey quis ser oportunista e comprar uma licença bancária patrocinada pelo Estado. E em que houve falhas de regulação. Da CMVM, que podia ter feito perguntas sobre produtos anunciados com rendibilidades de 8%. Mas sobretudo do Banco de Portugal.

O caso BPN é muito mais grave e sairá muito mais caro ao Estado do que o BPP. Mas, paradoxalmente, o BPP era mais fácil de desmontar do que o BPN, onde se suspeita da maior bandidagem. No BPP, não era preciso ser KGB: Bastava uma tarde de trabalho: pedir para ver a lista do dinheiro investido em retorno absoluto e exigir aumento de capital próprio que provisionasse o retorno que estava a ser garantido.

A partir do momento em que o mega-fundo foi constituído, o BPP ficou oco. Não é nada, não tem nada, não vale nada, é uma ruína decadente que devia pesar sobre as consciências daqueles que o criaram.

Mas o seu fecho é uma janela de ar fresco. Desta vez, o improvável acontece: é o Governo e a Caixa quem sai bem. É Sócrates, é Teixeira dos Santos, é Costa Pina, é Faria de Oliveira. Foram chantageados e não cederam. Apesar do erro do aval de 450 milhões de euros em benefício de credores "especiais" (caixas agrícolas e bancos estrangeiros), grande parte desse dinheiro pode ser recuperado. Sobretudo: num País em que se arranja sempre formas de manter o que apodrece, desta vez não se subsidia a manha, não se salva o falido, não se protege o fautor, não se sucumbe ao lóbi.

Parece estranho, mas hoje o dinheiro dos portugueses está mais seguro do que estava ontem. Quem está no mercado sabe que o erro tem punição. É por isso que há um triunfo: o risco moral prevaleceu.


PS:O Central - Banco de Investimento também fechou as portas. Contudo, tratava-se de um banco de investimento, não era uma instituição de crédito. Ao contrário do BPP.

psg@negocios.pt





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