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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 23 de Fevereiro de 2007 às 13:03

A Maia é uma nação

O ambiente na OPA corta-se à faca: a agressividade tomou conta dos protagonistas e a nacionalidade é, infalivelmente, a arma de arremesso em cima da mesa.

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O ambiente na OPA corta-se à faca: a agressividade tomou conta dos protagonistas e a nacionalidade é, infalivelmente, a arma de arremesso em cima da mesa.

Ontem, os dois maiores accionistas da Portugal Telecom vieram provar o que já se sabia: que a Telefónica está acertada com a Sonaecom; que o BES tem "um projecto próprio" para a PT; e que os dois são antagonistas.

A Telefónica: os espanhóis não se deixaram enfeitiçar pelas medidas anti-OPA de Granadeiro, que com a recompra de acções lhes piscava o olho ou a uma saída mais rentável (a um preço máximo de 11,5 euros) ou a ultrapassarem a fasquia dos 10% da empresa (com que automaticamente ficariam sem gastar dinheiro). Este último cenário teria de ser autorizado pelos accionistas e a Telefónica lembra-se bem de ter sido barrada por Mário Lino há dois anos, no último "share buyback". Os espanhóis ajustam assim contas e, inteligentemente, mantêm a possibilidade de aceitar a recompra de acções se a OPA falhar.

A PT: a proposta de recompra de acções enseja uma refundação da empresa, expurgando os accionistas especulativos e almejando um novo núcleo estável. Percebe-se o desejo da administração, que quer resolver a OPA e o pós-OPA, acabando com a estrutura retalhada de accionistas sem coesão nem interesses estratégicos comuns: hoje, ninguém está na PT pela PT mas sim por si e só por si. Basta ver o resultado da gestão balcanizada no Brasil, com uma Telefónica que, em contraste, cresceu em cima de uma estratégia accionista estável.

A CMVM: a guerra entre regulador e regulada atingiu ontem a cacofonia, com a Comissão a impor regras ao presidente da assembleia e o professor catedrático Menezes Cordeiro a recusar-se a receber lições de Direito de Carlos Tavares. A questão é comezinha mas, se ninguém ceder, pode resultar na impugnação da assembleia geral. Seria ridículo.

O BES: não resistiu e libertou a bílis sobre a Telefónica, acusando a Sonaecom de querer desmembrar a PT e apoiando a administração de Granadeiro por "defender uma estratégia nacional". Subentende-se: a estratégia do BES.

A Sonaecom: respondeu à letra ao BES, acusando-o de querer manter a influência na PT sem investir dinheiro. Mas não resistiu a arrolar a nacionalidade do seu projecto como testemunha das suas boas intenções. Aqui não há inocentes: todos tentam seduzir o Governo com a "vantagem" de se ser português. Mesmo que a OPA seja, por razões fiscais, lançada por uma Sonaecom BV, com sede na Holanda, empresa controlada pela Sonaecom, com sede na Maia.

A maioria do capital da PT é estrangeiro. O controlo é uma massa quebrada. O argumento "centro de decisão nacional" já enjoa. É razão errada para decisões puramente empresariais.

PS: O Jornal de Negócios errou

A Sonaecom alertou ontem: a compra de acções próprias pela PT até 11,5 euros é uma "pista falsa". Na quarta-feira, a manchete deste jornal era "PT sobe OPA para 11,5€", argumentando-se que os investidores estavam a ser aliciados para uma recompra de acções a 11,5 euros. Embora as notícias publicadas nessa edição não contivessem equívocos, a manchete e o editorial alimentaram a "pista falsa" e induziram os leitores em erro, o que lamento. O curto tempo entre a conferência da PT (que terminou depois das 21:30) e o encerramento da edição (às 22:00) contribuiu para a análise precipitada, mas não a justifica. Errámos.

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