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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 27 de Março de 2009 às 11:50

Apocalipse

A purga dos gestores começou: em Inglaterra, a casa do ex-presidente do RBS é apedrejada; em França, faz-se refém um director da 3M e sequestra-se o presidente da Sony (pedindo, e conseguindo, resgate...

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A purga dos gestores começou: em Inglaterra, a casa do ex-presidente do RBS é apedrejada; em França, faz-se refém um director da 3M e sequestra-se o presidente da Sony (pedindo, e conseguindo, resgate: indemnizações para os despedidos); nos EUA fazem-se ameaças de morte na AIG. A desigualdade produziu isto. É com isto que vamos regenerar o sistema?

O mundo exige que a economia mude mas não sabemos ainda como esta crise será contada nos livros de História. Dizemos por enquanto que é crise de ética, falha humana, um refluxo brutal do triunfo da ganância, do querer muito e querê-lo já que efabulou um crescimento impossível.

José Manuel Fernandes defendia, há dois dias no "Público", que é preciso definir o que é um bom gestor. Boa pergunta: a resposta pode definir a nossa própria relação com o futuro. O bom gestor é alguém que gera valor nas empresas? Ou é alguém que distribui esse valor com equidade entre accionistas e trabalhadores (capital e do trabalho)? Desistimos do marxismo, queremos um capitalismo humanista? Um e outro são utópicos. Ambos abrem a porta ao "bem" e entra o "mal".

Estamos no meio de um sismo que podemos interpretar de várias formas. Até o Apocalipse tem significados diferentes: os Católicos, no seu espírito trágico-medieval, de expiação, de culpa, conotam-no com o fim do Mundo; os Protestantes, que perdoam e ascendem, que têm a força de assumir a fragilidade dos homens, relacionam-no com o reinício: na Bíblia, uns (nós) chamam-lhe o Livro do Apocalipse; outros o Livro das Revelações (Apocalipse, palavra grega, significa "revelação").

Extraia-se pois da crise uma revelação, ensinamentos, doutrina, sem que os resumamos a meia dúzia de novos rácios de capital e alguns carimbos de "visto". Na próxima semana, os maiores governantes mundiais vão reunir-se no G20, para falar da crise, de como sair dela, de como actuar depois dela. É fácil aplacar a consciência colectiva com novas regulações financeiras, mas elas poderão ser tão prodigiosas quanto efémeras. O homem pode mudar as regras mas as regras não mudam o homem. As leis pós-Enron não serviram para nada. Contar com "homem bom", almofadado em novas regulações, é a melhor forma de não aprendermos nada com esta crise.

O mercado há-de prevalecer, o mérito vale uma recompensa, o interesse tem de ser motor de desenvolvimento; os reguladores têm de ser poderosos, o sistema financeiro tem de deixar de fazer "outsorcing" do risco nas agências de "rating". E os estímulos ao desempenho são mais bem dirigidos se em função do longo prazo.

"Gostava que o dinheiro não existisse", diz a Beatriz, 9 anos, na reportagem de hoje. Mas existe. Os altos salários e os prémios dos gestores que arruinaram empresas e, nisso, contribuíram para a destruição do sistema financeiro são chocantes. Mas a provocação superior de Brown e de Obama incita as multidões furiosas a fazer justiça pelas próprias mãos. É fácil arranjar bodes expiatórios para a nossa frustração colectiva mas a desigualdade não se abate, combate-se. Brown, Obama, o G20 têm esse mandato. Se não forem eles, é ninguém.

É hoje claro que a ética é não apenas o que distingue os homens, mas também o que perpetua a viabilidade dos sistemas. O capitalismo não exclui a ética - nem a inclui. Inclui o homem, virtuoso, defeituoso. Alguma vez isso mudará? Numa falha geológica, os sismos sucedem-se. É sempre uma questão de tempo.
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