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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 26 de Dezembro de 2007 às 12:20

Há algo podre neste reino

"Just when I think I"m out, they pull me back in", diz Al Pacino (Michael Corleone) numa citação famosa do "Padrinho III". No BCP também é assim: quando pensamos que o banco está a sair do estertor, a náusea regressa.

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"Just when I think I"m out, they pull me back in", diz Al Pacino (Michael Corleone) numa citação famosa do "Padrinho III". No BCP também é assim: quando pensamos que o banco está a sair do estertor, a náusea regressa.

Armando Vara é o protagonista principal, mas não o único, desta sequela em que Constâncio se fica pela reprimenda, Beck e Pinhal são tratados como pequenos travessos, Menezes pede repartição de "boys", Mexia surge como o pacificador. Só Carlos Tavares ainda não borrou a pintura, mas vai a tempo. Há algo podre no reino de Portugal...



O Banco de Portugal convocou os accionistas do BCP na sexta-feira para lhes dizer que nenhum administrador desde 1999 se pode candidatar aos órgãos do banco. A decisão de Constâncio é acertada e atempada, pois evita a perpetuidade aberrante daqueles que ainda não tinham percebido que não há espaço para um neojardinismo no BCP: a candidatura de Pinhal e de Beck caiu e, com ela, ruiu de vez a clique e a geração de Jardim Gonçalves.


A decisão não iliba, todavia, o Banco de Portugal, que deve explicações sobre o modo displicente com que, no passado, deixou que as práticas lhe passassem debaixo do nariz.


Mais: não se percebe o critério do Banco de Portugal nesta decisão. Há fortes indícios de práticas criminais mas os administradores do BCP não são punidos, apenas inibidos de se candidatarem. É como mandar um menino mal-comportado de castigo para o canto da sala.

Depois, todos os ex-administradores desde 1999 são tratados da mesma forma, como se todos tivessem tido o mesmo grau de envolvimento, que não tiveram. E há nesses administradores quem continue banqueiro, ainda que fora do BCP.


As suspeitas são demasiado graves para uma mera e indiscriminada reprimenda. O Banco de Portugal disse "basta!" em pianinho, colocando os administradores do BCP atrás de umas grades de algodão e, aparentemente, em descoordenação com a CMVM, numa pequena disputa privada de protagonismo. O Banco de Portugal ladra mas não morde -- mas foi eficaz: a caravana não passa.


No sábado, o País acordou com a sensação de sangue fresco, após a ilusão criada na véspera de "operação mãos limpas". Nada disso: houve uma pouco dolorosa "noite das faquinhas longas"; uma "limpeza étnica" dos administradores do BCP.


Já a CMVM verbalizou as acusações de "fortes indícios de ilícitos criminais". Se for verdade, é um caso de violação de regras contabilísticas, de ocultação de informação, de manipulação das cotações em Bolsa.


Nos Estados Unidos, o escândalo fundador da Enron teve dimensões incomparáveis de corrupção, com alastramento à banca de investimento e à auditoria, mas também lá se compraram acções próprias da sociedade, no caso através do fundo de pensões. O presidente executivo (Ken Lay) da Enron foi condenado, tendo morrido de ataque cardíaco quando esperava uma sentença de pelo menos 20 anos. Bernie Ebbers, presidente da Worldcom, está a cumprir pena de 25 anos.


Não deve haver sede para justicialismos no BCP, mas se os crimes se provarem, será muito mau se a punição for uma mera inibição idêntica para todos.


É, para já, da CMVM (depois será do DIAP) que se esperam as maiores revelações - e condenações. Carlos Tavares está descomprometido neste processo (não estava na CMVM à data dos factos) e colocou uma equipa a tempo inteiro e em contra-relógio, para produzir resultados até ao final do ano. Merece o benefício da dúvida: nos próximos dias, saber-se-á o que consegue e que coragem terá depois de ter as conclusões em mãos.


Após o saneamento de sexta-feira, o accionista EDP chamou a si o papel de desbloqueador, juntou grandes accionistas e estes fizeram fumo branco: "Habemus Papam", Carlos Santos Ferreira, gestor de mérito reconhecido, que deixa a CGD com os lucros mais altos de sempre e recorde na banca portuguesa. Agrada a gregos e não incomoda demasiado a troianos. À saída da reunião na EDP, os accionistas traziam na cara uma promessa de paz. Parecia bom de mais para ser verdade.


Era bom de mais para ser verdade. Não tardou até que o BCP fosse colocado numa camisa de varas. Os accionistas deram carta branca a Santos Ferreira para que escolhesse a sua equipa mas poucos terão imaginado o desplante da escolha de um vice-presidente indisfarçavelmente politizado e sem quaisquer provas dadas na banca. É preciso ser absolutamente ingénuo para crer na bondade da escolha de Armando Vara.


Podia ser um epílogo, mas é um prólogo. Alguém quer aproveitar-se do estado calamitoso do BCP para impor uma paz a todo o custo e invadido por corsários neoconservadores, dos que acreditam que purificam os locais por onde passam e que no futuro alguém lhes fará a justiça de o reconhecer. Leiam estas linhas: Santos Ferreira pode fazer parte da solução do BCP mas Armando Vara representa um novo problema. E nem todos os accionistas têm medo de não aceitar a iluminada lista.

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