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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 09 de Agosto de 2005 às 13:59

Mas por que se reformam?

Ontem, este jornal noticiou uma corrida às reformas na função pública, ainda no tempo das regras que o governo socialista vai mudar.

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Hoje, este jornal publica um estudo que mostra a atitude dos portugueses perante a reforma: passivos, pouco informados e pessimistas.Passivos porque não a preparam; pouco informados porque nem sabem quando será nem quanto receberão como pensão; pessimistas porque não esperam fazer grande coisa nela. Se há países onde os futuros pensionistas associam a reforma a ideias positivas («tempo para o lazer» ou «reencontro de tempo para si e para os outros»), Portugal associa-a a ideias negativas («velhice» ou «medos»).

Se a reforma não é, para nós, um reinício para coisas melhores; se não é um objectivo, um nirvana que se pretenda, então por que há corridas à reforma na função pública? Se estamos a viver mais anos, em melhores condições de saúde e poucos se sentem inúteis aos 55, 60 ou 65 anos, se não é para ganhar mais dinheiro nem é para ter boa vida, por que estão os funcionários públicos contra o aumento da idade de reforma ?

É pelo sossego. Mas não é o sossego pelo futuro, pelo tempo e disponibilidade para os netos e os amigos, para as viagens e os fins de tarde à beira-mar, para o cinema e o teatro e os museus. Não, é um sossego pelo passado. É um alívio.

Os funcionários públicos não querem entrar na reforma, querem sair do trabalho. Deixar para trás os chefes incompetentes, as promoções à força de cunhas, a mediocridade validada pelos sempiternos «A» no fim do ano, a aniquilação precoce da criatividade, o esmagamento da energia individual, o amargor de ser bode expiatório de um país inteiro, as invejas, o nivelamento por baixo, os boicotes ao trabalho, o sentimento de culpa de, detestando o sistema, se ter ficado igual a ele. Esse é o sistema que dá o poder a poucos e os incentiva a serem maus chefes, exaurindo a vontade de todos os outros.

Mais de 30 anos nisto dá cabo de qualquer cabeça. Ninguém é pessimista por vocação, mas por mágoa. O pessimismo não é causa da nossa condição de vida. É consequência dela. Não há pior que ter chefes imbecis. Nem melhor do que os não ter.

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