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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 15 de Março de 2011 às 11:26

Mudam as moscas mas a Merkel é a mesma

Portugal já estava em contagem decrescente para uma ajuda externa.

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Agora está também para eleições antecipadas. Mas não é preciso comprar outro relógio, o cronómetro é o mesmo. Não podia haver pior data para esta evasão dos eleitos. Se o poder fica vazio, quem o ocupa? Aqueles que não elegemos. Arriscamo-nos a ficar para tios dos nossos próprios filhos.

Comecemos pela política. O processo é tão básico que até irrita:
Passos Coelho está preparado para eleições, Sócrates está preparado para eleições, Cavaco vai ter de preparar-se para eleições (só Portugal não está preparado para eleições...). Mas nenhum dos três quer ficar com o ónus da instabilidade, o que fará dos próximos dias uma cegarrega de argumentos para o jogo do culpado e do desculpado.

Basta a apresentação de uma resolução de apoio ao pacote de austeridade no Parlamento, que será chumbada, e ficamos ingovernáveis.

Então, Cavaco Silva terá de agir, o que, aliás, ameaçou fazer sem fazer ideia de que poderia ter de cumprir a ameaça.

Sócrates negociou tudo pela calada. Conseguiu na sexta-feira uma vitória política em Bruxelas, para a qual concorreram outros portugueses: Teixeira dos Santos, Constâncio, Carlos Costa e Barroso. Essa vitória abriu uma nesga para outra forma de ser salvo. É um buraco de agulha, no qual não passa a grossa corda de forca que esta crise política cria.

Portugal ou será o último país a ser intervencionado pelo FMI no modelo grego e irlandês, que é péssimo; ou será o primeiro país a ser ajudado pelo novo modelo, em que o Fundo de Estabilização Europeu compra a nossa dívida acima de uma determinada taxa dos mercados, criando assim um tecto para os juros. Para estar no segundo modelo, o País tem de resistir até Abril. Com uma crise política, não passa de Março.

Ao longo dos últimos meses, o Governo foi torcendo palavras e números para tapar com fotografias a imagem das dificuldades portuguesas. Desde Novembro que não nos bastamos e estamos à mercê da tolerância da Europa. E entretanto Sócrates foi garantindo que não seriam necessárias mais medidas na véspera de apresentá-las, orçamentando crescimentos impossíveis, anunciado políticas de recuperação inexistentes, prometendo cortes de despesa que ficavam por metade. Por isso nunca convencemos, o que foi exigindo medidas adicionais, que chegam a ser apresentadas com uma candura desarmante - ou provocatória.

Estamos entre duas formas de ser ajudados, a intervenção à bruta ou a ajuda meiga. Com crise política, os juros voltam a subir e perde-se tudo. Quem é o culpado? Você decide, caro leitor de novo eleitor. Mas não se iluda: o próximo primeiro-ministro vai ser ainda menos poderoso que este já é - e do que o Presidente da República se deixou tornar.

Na manifestação de sábado da "geração à rasca", havia cartazes contra o domínio daqueles que não elegemos, como ontem escreveu Rui Tavares no "Público". Não votámos em Angela Merkel, nem em Trichet, nem em Barroso, mas os nossos políticos estão a tornar-se os tabeliães das decisões deles. Esta austeridade não tem alternativa. O que cumprimos hoje, se não é uma ditadura, é um ditado.

As eleições antecipadas aceleram a contagem decrescente. Mas, bem vistas as coisas, a negação histórica do Governo e a ausência de Presidente (ao não forçar uma coligação nas últimas legislativas) foram as pedras no riacho que nos trouxeram a esta margem. Se ninguém quer eleições, por que as vamos ter? Porque todos querem o poder. Incluindo os que dizem tê-lo hoje. E Merkel, é para o lado que dorme melhor.


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