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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 10 de Dezembro de 2009 às 11:27

Não há dinheiro mas há palhaços

Na Grécia, sinaliza-se uma ruptura financeira. Na Irlanda, radicalizam-se cortes na despesa. Em Espanha, gere-se pressão na dívida. Em Portugal, deputados insultam-se. Palhaços.

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Na Grécia, sinaliza-se uma ruptura financeira. Na Irlanda, radicalizam-se cortes na despesa. Em Espanha, gere-se pressão na dívida. Em Portugal, deputados insultam-se. Palhaços.

A abstenção em Portugal, afinal, não é alta: começa a ser uma generosidade votar nesta gente. Será que não têm noção do que são, de onde estão, do que representam, do que se propuseram, do que esperamos e exigimos deles?

A cena entre Ricardo Gonçalves e Maria José Nogueira Pinto presta-se a... presta-se a... Bom, a cena não presta. E só vale a pena falar disso porque os eleitores não podem resignar-se a um Parlamento onde os degraus só servem para descer. Batamos, pois, mais no ceguinho para que não se torne normal líderes dos maiores partidos chamarem-se de mentirosos, ministros a fazerem cornos, primeiros-ministros a recomendar juizinho, deputados a dizerem canalhadas, comissões parlamentares com palhaço para aqui, vendida para ali. A Assembleia da República não é uma escolinha de betinhos e fedelhos, é a casa da Democracia. A casa, a cozinha, a garagem e o bidé da Democracia.

Era bom que os deputados decentes, e não são poucos, repudiassem estes comportamentos. Nem a expressão "Pão e Circo" se aplica, pois o espectáculo não tem graça e pão não há. E este é o ponto principal: a banalidade e a fatalidade é constatar que os deputados mudam de assunto porque não querem que se fale ou, pior, porque não sabem o que fazer aos problemas brutais que vivemos.

Sim, brutais. A notícia mais importante do dia de ontem não foi a que abriu todos os telejornais. Não há palhaço que crie diversão suficiente para o agravamento das condições financeiras na Grécia, as medidas draconianas na Irlanda, os efeitos no risco da dívida espanhola, os impactos em Portugal.

A Grécia está em risco de precisar de um programa de ajuda, um "bail out", como nos bancos. Os países da Zona Euro "devem preparar-se para salvar a Grécia" se se chegar a esse ponto, alerta o professor de Leuven Paul de Grawe.

Se isso acontecer, a pequena economia portuguesa será afectada. Não porque tenha problemas tão graves como os da Grécia, que não tem, mas porque também é sulista, elitista e endividada, de que fugirão a sete pés os financiadores internacionais. É o que dizem os economistas. Foi o que disseram os mercados financeiros de todo o mundo, bolsas em queda, custos das obrigações do Tesouro em alta. As luzes dos painéis das agências de "rating" para esta Península estão todos a piscar.

Os parlamentos de todo o mundo estão concentrados nos seus problemas. Uns bem, outros provavelmente mal, mas com fito. Não com fitas, como cá. Em Portugal, ninguém parece querer compreender do que se fala quando se fala em redução rápida e grande do défice. Falamos de aumentar receitas sem querer assumir que provavelmente isso significa mais IVA ou mais IRS, como dizia ontem Daniel Bessa. Falamos de corte de despesas como se fosse possível fazer "forcinhas" nos ministérios.

Olhai a proposta de Orçamento da Irlanda, ontem apresentada: redução de 5% a 15% dos salários dos funcionários públicos, menos abonos sociais e subsídios, novas taxas, reduções drásticas nas despesas da saúde, educação, segurança social. Está a acontecer-lhes a eles e vai acontecer-nos a nós.

Agora é o Inverno do nosso descontentamento. Levem daqui os palhaços.

psg@negocios.pt
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