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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 11 de Novembro de 2009 às 11:39

No submundo dos partidos

O processo "Face Oculta" tornou-se um lança-chamas desgovernado. Arguidos e empresas já ardem, o fogo pode chispar para o primeiro-ministro e para o próprio o sistema judicial. Se mesmo o que não devia está a ser posto em causa, por que não o está...

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O processo "Face Oculta" tornou-se um lança-chamas desgovernado. Arguidos e empresas já ardem, o fogo pode chispar para o primeiro-ministro e para o próprio o sistema judicial. Se mesmo o que não devia está a ser posto em causa, por que não o está o financiamento partidário? Porque a raiz do mal está debaixo da crosta.

A legalidade das escutas a José Sócrates é o tema do dia, embora não se espere outra coisa do Supremo que não seja mandar destruí-las. Enquanto isso, o processo chegou ao financiamento de partidos. Porque o CDS recebeu cheques de Manuel Godinho mas diz que não sabe. Porque Godinho quis aplacar um processo na Refer a troco de pagamentos a partidos.

Os partidos, sobretudo PS e PSD, são repartições de poder e de poderes. Precisam de ganhar dinheiro para ganhar eleições. Para isso, criaram uma lei de financiamento partidário de cosmética, que vão reformando de inutilidade em inutilidade.

O conflito é claro: políticos a regular políticos. Os interesses são escuros: dinheiro a circular debaixo das mesas. A lei do financiamento partidário é uma fraude que carcome o Estado.

Deixando campos de irrelevância ao Tribunal Constitucional, à Entidade das Contas e Financiamentos Políticos, ao Fisco, à Judiciária, ao DIAP, até ao Tribunal de Contas, que já perdeu a voz de tanto denunciar a pouca vergonha.

Experimente pedir contas aos partidos. Nada. O exemplo de ética, transparência e bom governo começa na opacidade das suas contas, na impossibilidade que os próprios partidos têm de se controlarem a si mesmos, na indisponibilidade de fornecerem dados.

Experimente depois ir ao Tribunal Constitucional, onde essas contas estão depositadas.

Encontra listagens de dados em bruto e desactualizadas. As eleições deste ano? Talvez daqui a dois as encontre. Nos Estados Unidos, os dados são conhecidos quase em tempo real, na Internet, à sindicância de qualquer um.

Mesmo assim, esta é a face visível. Os 35 empresários que o Negócios hoje revela como doadores a partidos mereciam subir todos o "Elevador" da página 2. Porque dão a cara ao mesmo tempo que dão o dinheiro. Assinam os seus cheques. Seguem as boas práticas. Mesmo sabendo a facilidade que é utilizar as más.

Pior é a face oculta do financiamento partidário, os sacos azuis com asas, as malas pretas, as notas trocadas como entre traficantes de droga - mas traficando favores e estertores. É o submundo dos partidos, que têm os seus "homens da mala", operacionais que beneficiam quem paga e ameaçam quem não paga. Máfias que concorrem aos Parlamentos. Vícios deles, más fortunas nossas. Cargos, nomeações, cunhas, concursos, salários, presentes, ausentes, dementes.

O processo "Face Oculta" está a tornar públicas essas sevícias. E a extremar a tensão entre um sistema judicial manietado por leis e um sistema político que as faz. É um jogo perigoso, que transgride regras e salta para os jornais por um instinto de justiça popular.

Se quer mudar alguma coisa, o PS, que está no poder, nem precisa de ir longe: vá a Londres buscar João Cravinho ao exílio dourado a que o votou, depois da sua proposta anticorrupção séria e a sério. Até lá, continuaremos no custe o que custar - o que a campanha custar. O discurso dos políticos é um doa a quem doer. Na verdade, é um doa a quem doar.


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