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Opinião
Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 09 de Janeiro de 2006 às 13:59

Ó tempo, volta para trás...

A possibilidade da Iberdrola entrar no conselho superior da EDP foi gatilho para uma série de «constatações» – sobre capital estrangeiro, poderes presidenciais, política e economia – e em poucos dias a abundante opinião publicada ditou um consenso contrár

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Muitos políticos concordam. Muitos desses políticos estão a governar.

O ministro Pinho disse que se não fosse o Governo, a Galp seria hoje controlada por italianos. O ministro Lino disse que se o Estado sair da PT, a empresa fica estrangeira e que compreende os Estados que não foram tão longe a sair das empresas. Estados como a França, presume-se, em que o Governo vai ficar com poder de veto em qualquer aquisição de empresas em sectores estratégicos.

Mas há mais: editorialistas de outros jornais elogiaram a intervenção do Presidente Sampaio para travar a ascensão de espanhóis na EDP. Os candidatos Cavaco, Soares e Alegre disseram que se foi longe demais nas privatizações. E por aí fora.

A tal opinião publicada está a ressoar estes argumentos, diz que sim, que Estado é preciso, que qualquer dia perdemos a independência, que ficamos sem luz, água e telefones, que os espanhóis é que a sabem toda porque não põem as suas empresas a jeito e nós, serôdios, embarcámos em deslumbramentos neo-liberais e pusemo-nos a vender empresas e agora é que são elas.

Se é verdade que a opinião publicada influencia a opinião pública (exemplos recentes têm mostrado que não), então este neo-unanismo é perigoso. Está a criar-se o ambiente que legitima intervenções à francesa, propício para que dirigentes com visão estatizante possam recolocar o Estado nas empresas – e, ironia, serem heróis por isso.

Dê-se o benefício da dúvida: é frequente, em ambientes de incerteza, reclamarmos regressos a tempos de previsibilidade. Na nossa cultura, isso significa mais Estado. Nacionalize-se. Não podendo perpetuar as «golden shares», use-se um eufemismo. Ponha-se a Caixa Geral de Depósitos a fazer de Estado, com superpoderes na Galp e a comprar capital da PT; devolva-se à expressão «banco do Estado» o velho significado de «banco do Governo».

Este instinto de voltar a meter o País na toca é cíclico. Há um ano, véspera de eleições, o país estava atónito com a geração Santana-Portas-Sócrates e a mesma opinião publicada pedia a revisão do sistema político, virava-se para o Presidente da República e gritava socorro, falava em sistemas presidencialistas, pedia o regresso dos senadores. Foi uma moda. Já passou. Sócrates aliás respondeu-lhes há dias no «Correio da Manhã», criticando os estouvados que diziam que a democracia estava em perigo. Não está.

Estão em perigo os sectores económicos estratégicos? Dizem-nos que sim. Dizem «Estado, volta às empresas que privatizaste. Protege-nos do mal e dos estrangeiros, que querem vir sugar o tutano do homem português.»

Caro leitor, não acha estranho que a ortodoxia pensante tenha tão subitamente trocado de utopia?

Só há uma resposta: é uma moda. É passageiro. Só pode ser. Esperemos que seja. 

É hoje evidente que o Estado não soube sair bem das empresas. E é também inconsequente dizê-lo. Como incoerente é pedir à iniciativa privada que se atire para uma cultura de risco e, depois, dizer-lhe que só pode fazê-lo em sectores pouco importantes para o País.

O país não tem falta de Estado, tem falta de concorrência. E de regulação na falta dela. Mais Estado seria pior gestão, mais cunhas, mais promiscuidade, mais ineficiência. Mais Estado é mais Governo e mais Governo é trocar consumidores por eleitores.

O bicho-papão não está no estrangeiro. Está no espelho. É preciso parti-lo. Sete anos de azar? É melhor do que vidas inteiras.

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